Vou te fazer aqui uma pergunta... Eh... Em Efésios 4:8
fala que Cristo desceu às... ... Protestantes... e levou cativo o cativeiro.
... Primeiro Pedro, capítulo 3, versículo 19, diz que ... pregou para os que
estavam em prisão. Teria Cristo, depois da sua morte, descido ao inferno,
pregado para eles, para os que morreram na antiguidade, e levado os que se
arrependeram aos céus?
Essa é uma pergunta muito importante, porque estamos diante
de duas passagens que, quando colocadas lado a lado, levantam uma questão sobre
o que aconteceu entre a morte e a ressurreição de Jesus Cristo.
Você está relacionando corretamente:
Efésios 4.8-10: Cristo desceu às regiões inferiores da terra
e levou cativo o cativeiro.
1 Pedro 3.18-20: Cristo foi e pregou aos espíritos em
prisão.
A pergunta central é: Jesus desceu ao mundo dos mortos,
anunciou alguma mensagem àqueles que estavam ali e conduziu os salvos do Antigo
Testamento à presença de Deus?
Existem interpretações diferentes entre os estudiosos
protestantes. Vamos examinar os textos antes de chegar a uma conclusão.
1.
Efésios 4.8-10: Cristo desceu e levou cativo o cativeiro
Vamos começar lendo Efésios 4.8:
“Pelo que diz: Subindo ao alto, levou cativo o cativeiro e
deu dons aos homens.”
Paulo está fazendo uma referência ao Salmo 68.18.
A expressão “levou cativo o cativeiro” é muito
significativa.
A imagem é de um rei vitorioso que retorna de uma batalha,
trazendo consigo os sinais da vitória sobre seus inimigos.
Aplicando isso à obra de Cristo, temos:
Jesus venceu o pecado.
Jesus venceu a morte.
Jesus triunfou sobre as forças espirituais do mal.
Jesus foi exaltado acima de todos os poderes.
Veja também Colossenses 2.15:
“E, despojando os principados e potestades, os expôs
publicamente e deles triunfou em si mesmo.”
Mas existe uma questão importante: Efésios 4.8 não afirma
expressamente que Jesus desceu ao inferno para buscar as almas dos justos do
Antigo Testamento.
No versículo 9, Paulo fala das regiões inferiores da terra.
Existem três interpretações principais:
A descida de Cristo ao mundo dos mortos, entre sua morte e
ressurreição.
A descida de Cristo do céu à terra, isto é, sua encarnação.
Uma referência à descida de Cristo por meio do Espírito.
A interpretação da encarnação tem bastante apoio entre
comentaristas protestantes. Portanto, precisamos ter cuidado para não afirmar
que Efésios 4.9, isoladamente, comprova uma descida ao inferno.
2.
Primeira Pedro 3.18-20: quem eram os espíritos em prisão?
Agora chegamos ao texto mais intrigante da sua pergunta.
Observe 1 Pedro 3.18-19:
“Porque também Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo
pelos injustos, para levar-nos a Deus; mortificado, na verdade, na carne, mas
vivificado pelo Espírito; no qual também foi e pregou aos espíritos em prisão.”
Pedro acrescenta uma informação muito importante no
versículo 20:
“Os quais noutro tempo foram rebeldes, quando a
longanimidade de Deus esperava nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca.”
Aqui encontramos três elementos:
Cristo pregou aos espíritos em prisão.
Esses espíritos estavam relacionados à desobediência.
Pedro relaciona essa desobediência aos dias de Noé.
Mas quem eram esses espíritos?
Existem três interpretações principais.
Primeira interpretação: eram os seres humanos que morreram
no dilúvio.
Segundo essa interpretação, Cristo teria descido ao Hades e
anunciado sua vitória ou proclamado sua mensagem aos que morreram nos dias de
Noé.
Essa interpretação está relacionada à doutrina da descida de
Cristo ao mundo dos mortos.
Segunda interpretação: eram anjos caídos.
Alguns estudiosos entendem que Pedro está falando de seres
espirituais rebeldes, relacionados à interpretação de Gênesis 6.1-4.
Esses seres estariam aguardando o julgamento de Deus.
Essa interpretação encontra uma possível ligação com Judas 6
e 2 Pedro 2.4.
Terceira interpretação: Cristo pregou por meio de Noé.
Essa interpretação entende que Cristo, pelo Espírito,
anunciou a mensagem de Deus por intermédio de Noé aos homens daquela geração.
Naquele momento eles estavam vivos, mas agora são chamados
de espíritos em prisão porque morreram em consequência de sua desobediência.
Essa interpretação foi defendida por Agostinho e também por
estudiosos protestantes modernos.
O importante é perceber que o texto apresenta dificuldades
interpretativas reais. Não existe unanimidade entre os comentaristas.
3. Jesus ofereceu uma segunda oportunidade de salvação aos mortos?
Aqui precisamos ter bastante cuidado teológico.
Se Jesus desceu ao mundo dos mortos e anunciou alguma coisa
aos espíritos em prisão, isso significa que ofereceu uma segunda oportunidade
de arrependimento àqueles que morreram?
Não podemos concluir isso a partir de 1 Pedro 3.19.
Existe uma diferença entre:
Pregar o evangelho oferecendo salvação.
Proclamar uma vitória.
Anunciar uma sentença ou juízo.
O verbo grego utilizado em 1 Pedro 3.19 é kērýssō (κηρύσσω),
que significa proclamar ou anunciar publicamente. Não significa necessariamente
evangelizar oferecendo oportunidade de salvação.
Além disso, Hebreus 9.27 declara:
“E, como aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo,
depois disso, o juízo.”
E 1 Pedro 4.6, quando fala do evangelho pregado aos mortos,
também não exige a interpretação de que pessoas receberam uma oportunidade de
salvação depois da morte. Pode referir-se àqueles que ouviram o evangelho
enquanto estavam vivos e posteriormente morreram.
4.
E os salvos do Antigo Testamento? Jesus os levou para o céu?
Agora chegamos à parte mais interessante da sua pergunta.
Existe uma interpretação teológica tradicional segundo a
qual, antes da morte e ressurreição de Cristo, os justos do Antigo Testamento
aguardavam a consumação da redenção no chamado seio de Abraão.
Essa interpretação costuma relacionar três passagens:
Lucas 16.22-23: Jesus apresenta Lázaro sendo levado pelos
anjos para o seio de Abraão, enquanto o rico se encontra em tormento.
Lucas 23.43: Jesus promete ao ladrão arrependido:
“Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso.”
Efésios 4.8: Paulo declara que Cristo levou cativo o
cativeiro.
Alguns teólogos relacionam essas passagens da seguinte
maneira:
Os justos do Antigo Testamento aguardavam a consumação da
redenção.
Cristo morreu na cruz e realizou a obra necessária para a
nossa salvação.
Cristo desceu ao mundo dos mortos.
Cristo proclamou sua vitória.
Cristo conduziu os justos à presença de Deus.
Essa é uma interpretação conhecida na história da teologia
cristã, mas precisamos reconhecer que a Bíblia não apresenta explicitamente
todos esses acontecimentos nessa sequência.
Não podemos afirmar que Efésios 4.8 comprova, sozinho, que
Jesus retirou as almas dos patriarcas do seio de Abraão e as levou ao céu.
5.
O que podemos afirmar com segurança?
Existem algumas verdades bíblicas que não dependem da
solução de todas essas questões:
Jesus morreu pelos nossos pecados (1Pe 3.18).
Jesus venceu a morte (Ap 1.18).
Jesus triunfou sobre os poderes espirituais (Cl 2.15).
Jesus ressuscitou e foi exaltado acima de todos os poderes
(Ef 1.20-22).
A salvação dos antigos e dos novos convertidos tem sua
fundamentação na obra redentora de Cristo (Hb 9.15).
6.
Minha conclusão teológica
Eu resumiria assim:
É possível defender, dentro de uma interpretação tradicional
da descida de Cristo ao Hades, que Jesus, entre sua morte e ressurreição,
proclamou sua vitória no mundo espiritual e que sua obra trouxe a consumação da
redenção prometida aos justos do Antigo Testamento.
Entretanto, precisamos distinguir essa interpretação daquilo
que os textos afirmam diretamente.
Não temos uma declaração bíblica inequívoca dizendo que
Jesus pregou o evangelho aos mortos para lhes oferecer uma segunda oportunidade
de salvação.
Uma observação que considero especialmente importante: a
vitória de Cristo não começou quando Ele desceu ao mundo dos mortos. Ela foi
conquistada por sua obra na cruz e manifestada poderosamente em sua
ressurreição.
Uma questão para aprofundarmos
Gostaria de chamar sua atenção para uma passagem que pode
ampliar bastante nosso estudo: Hebreus 11.39-40.
Ali, o escritor afirma que os heróis da fé do Antigo
Testamento alcançaram bom testemunho pela fé, mas não receberam a concretização
da promessa, porque Deus havia providenciado algo superior para nós.
Isso levanta uma questão muito interessante:
Os patriarcas, profetas e demais justos do Antigo Testamento
aguardavam a obra redentora de Cristo para receberem a plenitude da promessa?
Essa passagem merece um estudo especial, principalmente
quando a relacionamos com Romanos 3.25-26 e Hebreus 9.15.
Fontes:
Estudo acadêmico brasileiro – UNASP: Espíritos em prisão.
NET Bible – Comentário de 1 Pedro 3.19.
Crossway – Did Jesus Descend to Hell?.

