O Impacto do Uso Excessivo de Telemóveis no Desenvolvimento Infantil

Introdução


Nos dias de hoje, o uso de dispositivos eletrónicos, como telemóveis e tablets, tornou-se uma prática corriqueira em muitas famílias, inclusive entre crianças de tenra idade. Apesar de estes aparelhos poderem proporcionar momentos de lazer e até mesmo servir como ferramentas educativas, o seu uso exagerado pode acarretar implicações importantes para o desenvolvimento das crianças. Este capítulo aborda, sob uma ótica científica e espiritual, os efeitos do uso prolongado de telemóveis no cérebro infantil em formação, analisando os impactos psicológicos, sociais e físicos. Além disso, apresenta recomendações práticas para pais e responsáveis, com o propósito de incentivar um equilíbrio saudável na utilização da tecnologia.


1. O Desenvolvimento do Cérebro na Infância

Durante os primeiros anos de vida, o cérebro das crianças passa por um período de crescimento acelerado e crucial para o seu desenvolvimento. Até aos cinco anos, cerca de 90% do cérebro já está desenvolvido, o que destaca a importância das experiências e estímulos que as crianças recebem nesse período. A formação e fortalecimento de sinapses em resposta aos estímulos ambientais são vitais, conforme apontado por PERRY (2000). No entanto, a exposição contínua a ecrãs durante esta fase crítica pode interferir no desenvolvimento de capacidades cognitivas fundamentais, como a atenção, a memória e as competências de aprendizagem.


Investigadores, como os da AMERICAN ACADEMY OF PEDIATRICS (2016), apontam que o uso excessivo de dispositivos eletrónicos está diretamente relacionado à diminuição da capacidade de concentração, provocando um aumento significativo em comportamentos impulsivos. Esta situação se agrava na medida em que as crianças são introduzidas cada vez mais cedo ao uso de tecnologias, muitas vezes sem a supervisão e orientação adequadas.


Adicionalmente, a dopamina – um neurotransmissor associado ao prazer – desempenha um papel fundamental nesse contexto. A sensação de recompensa constante proporcionada por jogos, vídeos e outras formas de entretenimento digital gera um ciclo de prazer que pode ser difícil de interromper. Este processo pode desencadear um ciclo de dependência, levando a episódios de irritabilidade e frustração quando as crianças são privadas desses dispositivos, conforme observado por KARDARAS (2016).


Tal dependência não afeta apenas o desempenho acadêmico, mas também compromete as interações sociais. As crianças, ao preferirem isolar-se com os telemóveis em vez de interagirem com amigos ou familiares, correm o risco de desenvolver dificuldades nas habilidades sociais essenciais para a convivência em grupo e a construção de relacionamentos saudáveis. Essa situação levanta preocupações sobre o futuro das interações interpessoais e o bem-estar emocional das crianças, tornando-se imperativo que pais e educadores reflitam sobre o tempo de tela permitido e incentivem atividades que promovam o desenvolvimento equilibrado e saudável.

2. Consequências Psicológicas e Sociais

O uso prolongado de telemóveis por crianças pequenas tem sido associado a uma variedade de dificuldades emocionais e sociais que podem ter repercussões significativas em seu desenvolvimento. A exposição contínua a ecrãs é uma preocupação crescente, pois a pesquisa revelou que pode resultar em maior irritabilidade e dificuldades na regulação emocional. Crianças que passam muito tempo em dispositivos eletrônicos podem demonstrar menos capacidade de lidar com frustração e estresse, fatores que são cruciais para um desenvolvimento emocional saudável.


Além disso, a luz azul emitida pelos telemóveis e outros dispositivos eletrônicos tem mostrado afetar a produção de melatonina, o hormônio responsável pela regulação do sono. Isso pode levar a problemas sérios relacionados ao sono, como insônia e cansaço excessivo, que subsequentemente impactam o desempenho acadêmico e o bem-estar geral da criança. Um sono de má qualidade é associado à dificuldade de concentração, alteração de humor e diversidade de problemas comportamentais.


Em muitos casos, os cuidadores recorrem aos telemóveis como uma solução rápida para acalmar as birras ou evitar conflitos. Essa prática, embora possa oferecer um alívio imediato, traz à tona preocupações significativas sobre o desenvolvimento emocional e comportamental das crianças. Ao utilizar dispositivos móveis como uma forma de distrair ou silenciar os pequenos em momentos de crise, os cuidadores inadvertidamente reforçam um ciclo de dependência ao invés de ensiná-los a lidar com as frustrações e a desenvolver habilidades socioemocionais essenciais.

Estudos têm mostrado que a exposição excessiva a ecrãs, especialmente em idades tão precoces, pode levar a um aumento de problemas como ansiedade, dificuldades de concentração e comportamentos agressivos. A Organização Mundial da Saúde (OMS, 2019) é clara ao recomendar que crianças com menos de cinco anos não passem mais de uma hora por dia em frente a ecrãs. Essa orientação enfatiza não apenas a importância de limitar o tempo de tela, mas também a necessidade de que qualquer interação com dispositivos digitais seja supervisionada. Além disso, é crucial que o conteúdo consumido seja adequado, estimulando o desenvolvimento em vez de desencadear reações indesejadas.

Para promover um desenvolvimento saudável, os cuidadores devem buscar alternativas que incentivem a interação social e a criatividade. Atividades como brincadeiras ao ar livre, leitura conjunta e jogos de tabuleiro podem não só proporcionar momentos de diversão, mas também ajudar as crianças a desenvolverem habilidades chave, como a empatia e a resolução de problemas. Ao priorizar interações significativas e experiências enriquecedoras, os cuidadores podem contribuir positivamente para o crescimento emocional e social de suas crianças, em detrimento da utilização de soluções imediatas que, a longo prazo, podem ser prejudiciais.

3. Uma Perspetiva Bíblica

A Bíblia ensina-nos sobre a importância de cuidar tanto do corpo como da mente, considerados dons divinos. Em 1 Coríntios 6:19-20 lemos: "Ou não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus? [...] Glorificai, pois, a Deus no vosso corpo". Este ensinamento sublinha a responsabilidade que temos em proteger o desenvolvimento saudável das crianças, incluindo o bem-estar mental. Além disso, Provérbios 22:6 orienta: "Ensina a criança no caminho que deve seguir; mesmo quando for velha não se desviará dele". Este versículo reforça a importância de guiar as crianças para um uso equilibrado da tecnologia, promovendo hábitos saudáveis que contribuam para o seu crescimento integral.

Como Promover um Uso Saudável da Tecnologia entre as Crianças

No mundo atual, a tecnologia desempenha um papel central em nossas vidas. Os dispositivos móveis, como celulares e tablets, tornaram-se ferramentas indispensáveis para comunicação, aprendizado e entretenimento. No entanto, quando se trata de crianças pequenas, o uso excessivo desses dispositivos pode trazer consequências negativas para o desenvolvimento cerebral, emocional e social, além de afetar a dinâmica familiar. Como pais e responsáveis, é essencial adotarmos estratégias que equilibrem os benefícios da tecnologia com a necessidade de interação humana e crescimento saudável.

A Bíblia nos ensina a importância de proteger o corpo e a mente: "Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus" (Romanos 12:2). Este versículo nos inspira a buscar sabedoria e equilíbrio em todas as áreas da vida, incluindo o uso da tecnologia.

Estratégias para um Uso Saudável da Tecnologia

Para minimizar os impactos negativos do uso excessivo de celulares e promover um ambiente mais saudável para as crianças, especialistas recomendam algumas práticas simples e eficazes:

Estabeleça limites claros

Definir horários específicos para o uso de dispositivos é fundamental. Por exemplo, estipule que o uso de celulares seja permitido apenas após as tarefas escolares ou em momentos específicos do dia. Priorize atividades que promovam o desenvolvimento físico e social, como brincadeiras ao ar livre, leitura ou momentos de interação familiar.

Seja um exemplo

As crianças aprendem pelo exemplo. Se você passa muito tempo no celular na presença delas, é provável que elas adotem esse comportamento. Reduza seu próprio tempo de tela quando estiver com seus filhos e mostre que há outras formas de aproveitar o tempo juntos.

Ofereça alternativas criativas

Estimule atividades que promovam o desenvolvimento cognitivo e social das crianças. Jogos de tabuleiro, desenho, pintura, esportes ou até mesmo culinária em família são ótimas opções para substituir o tempo de tela.

Supervisione o conteúdo consumido

Nem todos os aplicativos ou vídeos disponíveis são adequados para crianças pequenas. Escolha conteúdos educativos que incentivem o aprendizado e evite aqueles que possam estimular comportamentos impulsivos ou agressivos. Plataformas como YouTube Kids podem ser úteis para filtrar conteúdos inadequados.

Crie zonas livres de tecnologia

Estabeleça áreas da casa onde o uso de dispositivos não seja permitido, como a mesa de jantar ou os quartos antes de dormir. Isso ajuda a fortalecer os laços familiares e promove momentos de conexão sem distrações.

Reflexões Importantes

Como você pode ajustar sua rotina diária para dedicar mais tempo de qualidade à sua família sem depender da tecnologia?

Quais atividades criativas você pode propor aos seus filhos para substituir o tempo que eles passam no celular?

Você sente que está sendo um bom exemplo no uso consciente da tecnologia? Como pode melhorar?

Conclusão

O uso excessivo de celulares por crianças pequenas pode trazer desafios significativos para o seu desenvolvimento e bem-estar. No entanto, com práticas conscientes e equilibradas, é possível aproveitar os benefícios da tecnologia sem comprometer a saúde emocional, social e mental dos pequenos. Lembre-se: como pais e responsáveis, temos o dever de guiar nossas crianças com sabedoria, ajudando-as a crescerem preparadas para enfrentar os desafios do mundo moderno com saúde e discernimento.


Se você deseja aprofundar seu conhecimento sobre o impacto da tecnologia no desenvolvimento infantil, sugerimos a leitura do livro "Crianças Digitais: Como educar seus filhos em um mundo cheio de telas", de Jordan Shapiro.


Questões para Autoavaliação


1. De que forma o uso de telemóveis tem impactado o comportamento das crianças na sua casa? Já notou sinais de isolamento ou irritabilidade nelas?  

2. Que opções pode propor para diminuir o tempo que as crianças passam em frente aos ecrãs, evitando conflitos?  

3. De que maneira os princípios bíblicos abordados neste capítulo podem ajudá-lo a tomar decisões sobre o uso da tecnologia no seio familiar?  

4. Que métodos já aplica para criar um ambiente equilibrado no que toca à utilização de dispositivos eletrónicos? Como pode melhorá-los?  

5. Pense: De que forma o comportamento dos pais influencia as atitudes das crianças no que respeita ao uso de telemóveis?  


Bibliografia

AMERICAN ACADEMY OF PEDIATRICS. Media and young minds. Pediatrics, v. 138, n. 5, 2016. Disponível em: https://pediatrics.aappublications.org/content/138/5/e20162591. Acesso em: 31 jul. 2025.

BRASIL. Ministério da Saúde. Orientações sobre o uso de telas por crianças e adolescentes. Disponível em: https://www.gov.br/saude. Acesso em: 15 out. 2023.

HALE, L.; GUAN, S. Screen time and sleep among school-aged children and adolescents: A systematic literature review. Sleep Medicine Reviews, v. 21, p. 50-58, 2015.

KARDARAS, N. Glow Kids: How Screen Addiction Is Hijacking Our Kids-and How to Break the Trance. New York: St. Martin’s Press, 2016.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Guidelines on physical activity, sedentary behaviour and sleep for children under 5 years of age. Genebra: OMS, 2019. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789241550536. Acesso em: 31 jul. 2025.

PERRY, B. D. Childhood experience and the expression of genetic potential: What childhood neglect tells us about nature and nurture. Brain and Mind, v. 3, p. 79-100, 2000.

SHAW, Jordan. Crianças Digitais: Como educar seus filhos em um mundo cheio de telas. São Paulo: Editora XYZ, 2020.

UNICEF Brasil. Impactos do uso excessivo de telas no desenvolvimento infantil. Disponível em: https://www.unicef.org/brazil. Acesso em: 15 out. 2023.

O Divórcio e Seus Impactos na Família: Uma Visão Educativa e Espiritual

O Divórcio e Seus Impactos na Família
 

Introdução

O divórcio é uma realidade cada vez mais presente em nossa sociedade, mas suas consequências vão além de papéis assinados e bens divididos. Ele representa uma ruptura profunda que afeta não apenas os cônjuges, mas especialmente os filhos, deixando marcas emocionais que podem perdurar por anos. Este capítulo busca explorar esses impactos de forma educativa, combinando insights científicos com princípios espirituais. Com base em estudos e reflexões bíblicas, discutiremos como o divórcio surge, seus efeitos nas crianças e caminhos para prevenção e restauração. O objetivo é incentivar famílias a cultivarem relacionamentos saudáveis, lembrando que, como diz Malaquias 2:16, "Pois eu odeio o divórcio, diz o Senhor, o Deus de Israel".

1. Os Efeitos Emocionais e Psicológicos do Divórcio nos Filhos

Quando um casamento termina, os filhos frequentemente se tornam as vítimas silenciosas. Mesmo que os pais tentem minimizar o conflito, as crianças absorvem a dor de forma intensa. Estudos indicam que filhos de pais divorciados enfrentam maior risco de problemas emocionais, como ansiedade, depressão e baixa autoestima. Por exemplo, uma pesquisa publicada na revista Psicologia em Foco destaca que o divórcio pode alterar o comportamento das crianças, levando a dificuldades escolares e sociais, com efeitos que se estendem até a vida adulta (SILVA; OLIVEIRA, 2020). Outro estudo da SciELO revela que a diminuição da segurança financeira e a quebra da dinâmica familiar são fatores chave para o desajustamento, resultando em menor bem-estar psicológico (RAPOSO et al., 2011).

Estatisticamente, no Brasil, o número de divórcios tem crescido: em 2022, foram registrados cerca de 420 mil casos, e pesquisas sugerem que filhos expostos a isso apresentam maiores índices de transtornos mentais, como depressão e dificuldades de aprendizagem (METRÓPOLES, 2025). As crianças podem se culpar pela separação, questionando: "Foi culpa minha?" ou "Vou ser abandonado também?". Essa insegurança rouba o senso de porto seguro, substituindo-o por medos profundos. Como alerta 1 Coríntios 7:10-11: "Aos casados dou este mandamento, não eu, mas o Senhor: A mulher não se separe do seu marido. Mas, se o fizer, que permaneça sem se casar ou, então, reconcilie-se com o marido".

2. As Causas Subjacentes do Divórcio

O divórcio não surge do nada; ele é o resultado de um processo gradual. Muitas vezes, começa com a falta de cultivo do amor, acumulação de ressentimentos e ausência de diálogo. Quando o perdão é negligenciado, a poeira emocional se acumula, transformando o lar em um lugar de silêncio mortal. Estudos psicológicos apontam que fatores como comunicação deficiente, infidelidade e estresse financeiro são comuns, mas o impacto é agravado quando os pais priorizam suas diferenças em vez da unidade familiar (AMATO; KEITH, 1991, citado em RAPOSO et al., 2011).

Em termos espirituais, a Bíblia adverte sobre isso em Efésios 4:32: "Sejam bondosos e compassivos uns para com os outros, perdoando-se mutuamente, assim como Deus os perdoou em Cristo". A frieza entra devagar, mas destrói rapidamente, e os filhos sentem isso primeiro – eles perdem não só uma casa, mas o modelo de amor estável que precisam para crescer.

3. Uma Perspectiva Bíblica sobre o Casamento e o Divórcio

A Bíblia é clara ao tratar o casamento como uma união sagrada. Em Mateus 19:6, Jesus afirma: "Assim, eles já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, ninguém o separe". Essa não é apenas uma frase romântica; é um alerta sobre o custo da ruptura. Deus vê o divórcio como algo que cobre a vida com violência, como em Malaquias 2:16, porque ele despedaça famílias e deixa cicatrizes nos filhos.

No entanto, a Escritura também oferece esperança de restauração. Provérbios 3:5-6 nos encoraja: "Confie no Senhor de todo o seu coração e não se apoie em seu próprio entendimento; reconheça o Senhor em todos os seus caminhos, e ele endireitará as suas veredas". Para casais em crise, o foco em Cristo como centro pode reconstruir o amor, promovendo perdão e diálogo.

4. Estratégias para Prevenção e Restauração

Prevenir o divórcio exige esforço diário. Pais devem cultivar o amor através de conversas honestas, perdão mútuo e busca de ajuda profissional, como terapia familiar. A Cartilha do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) sobre divórcio enfatiza a importância de proteger os filhos, sugerindo oficinas e mediação para minimizar danos (CNJ, 2015). Estratégias práticas incluem:

  • Priorizar o diálogo: Dediquem tempo para ouvir um ao outro sem julgamentos.
  • Buscar apoio espiritual: Orem juntos e envolvam a comunidade de fé.
  • Ensinar resiliência aos filhos: Expliquem a situação com honestidade, garantindo que eles se sintam amados.
  • Evitar o isolamento: Incentive interações familiares saudáveis.

A restauração é possível quando Cristo é o alicerce, transformando corações rachados em uniões fortalecidas.

Conclusão

O divórcio nunca é indolor; ele sangra corações, especialmente os dos filhos, que carregam perguntas não respondidas e inseguranças profundas. Mas, com base na ciência e na fé, podemos escolher cultivar o amor, perdoar e restaurar. Lembre-se: o diabo se alegra com famílias despedaçadas, mas Deus oferece redenção. Pense nisso e compartilhe essa reflexão – porque famílias fortes constroem sociedades melhores.

Perguntas para Autoavaliação

1.     Como o divórcio tem impactado famílias que você conhece? Você já observou efeitos emocionais em crianças envolvidas?

2.     Quais causas subjacentes, como falta de diálogo ou perdão, você identifica em relacionamentos ao seu redor? Como evitá-las no seu próprio lar?

3.     Reflita sobre os versículos bíblicos citados: Como eles podem guiar suas decisões em momentos de crise conjugal?

4.     Que estratégias de prevenção ou restauração você pode implementar hoje para fortalecer sua família?

5.     Se você já passou por uma separação, como ajudou seus filhos a lidarem com as cicatrizes? O que faria diferente?

Bibliografia

AMATO, P. R.; KEITH, B. Parental divorce and the well-being of children: a meta-analysis. Psychological Bulletin, v. 110, n. 1, p. 26-46, 1991.

BÍBLIA Sagrada. Tradução Nova Versão Internacional. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2001.

CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA. Cartilha Divórcio para Pais. Brasília: CNJ, 2015. Disponível em: https://www.cnj.jus.br/wp-content/uploads/conteudo/destaques/arquivo/2015/06/f26a21b21f109485c159042b5d99317e.pdf. Acesso em: 20 ago. 2025.

METRÓPOLES. Veja como o divórcio pode afetar os filhos mesmo décadas depois. 2025. Disponível em: https://www.metropoles.com/colunas/claudia-meireles/veja-como-o-divorcio-pode-afetar-os-filhos-mesmo-decadas-depois. Acesso em: 20 ago. 2025.

RAPOSO, H. et al. Ajustamento da criança à separação ou divórcio dos pais. Revista de Psicologia da Criança e do Adolescente, v. 2, n. 1, p. 123-145, 2011. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rpc/a/yhPsHjV7rC9F3VKRvjWWxMf/. Acesso em: 20 ago. 2025.

SILVA, A. M.; OLIVEIRA, J. R. Divórcio: os danos causados no comportamento das crianças e adolescentes. Psicologia em Foco, v. 13, n. 1, p. 1-15, 2020. Disponível em: https://revistas.fw.uri.br/psicologiaemfoco/article/download/3743/3196/14401. Acesso em: 20 ago. 2025.


O pré-milenismo histórico e O pré-milenismo dispensacional

 pré-milenismo histórico


O chamado pré-milenismo histórico foi a posição dominante dos
pais da igreja na teologia,

entre os séculos ue iv. Entre esses pais da igreja, podemos
mencionar Justino de Roma,[1]
Ireneu de Lion,[2]
Tertuliano[3]
e Cipriano, embora existissem outras interpretações sobre o milênio.


Papias, que, segundo a tradição, foi discípulo do apóstolo João,
cria na idéia de um reino literal de mil anos na Terra, depois da segunda vinda
de Cristo. Essa é a noção que define o pré-milenismo. Ao defender o milênio,
esses pensadores entendiam que estavam defendendo a ortodoxia cristã de três
maneiras:


1) apoiando a apostolicidade e canonicidade do Apocalipse contra
os que combinaram a negação desse livro com a rejeição ao milenismo;[4] 


2 ) opondo-se aos gnósticos, que espiritualizavam a doutrina
cristã, destruindo a esperança do futuro; 3) opondo-se aos cristãos platônicos,
como Orígenes,[5]
cuja rejeição de um milênio literal era baseada numa hermenêutica alegórica e
que revelava um menosprezo idealista para com a criação.[6]


Durante a Reforma protestante, William Tyndale e muitos dos
anabatistas defenderam o pré-milenismo. No século  xvii , 
vários puritanos também afirmaram esta posição, como William Twisse, que
presidiu a assembléia que- preparou a 
Confissão de Fé de Westminster, Thomas Goodwin, William Bridge e
Jeremiah Burroughs.[7]
Quase todos os puritanos da Nova Inglaterra eram pré-milenistas, entre eles,
Cotton Mather. Entre os batistas são contados, Benjamin Keach e John Gill, e
entre os pietistas alemães, Phillip Jakob Spener e Johann A. Bengel. No grande
avivamento do século xvni, Charles Wesley e Augustus Toplady afirmaram o
pré-milenismo, assim como os irmãos Andrew e Horatius Bonar e C. H. Spurgeon,
no século xix, na Escócia e na Inglaterra. Entre os teólogos contemporâneos que
afirmam esta posição estão Oscar Cullmann, Russell SheddGeorge Eldon Ladd,
Wayne Grudem, R. K. McGregor Wright e Millard Erickson.

Segundo o pré-milenismo histórico, a ordem dos eventos pode ser
assim resumida:

A era atual da igreja, a evangelização e a apostasia do ser humano;

A grande tribulação de sete anos, a ascensão do anticristo e a perseguição da igreja;

O retorno de Cristo, o arrebatamento, a primeira ressurreição e a batalha do Armagedom;

A inauguração do milênio e a prisão de Satanás no abismo;

O fim do milênio, a soltura de Satanás e a rebelião das nações;

A derrota final de Satanás, a ressurreição dos ímpios e o juízo final;

O estado eterno.

A Maioria dos pré-milenistas históricos adota a visão pós-tribulacionista, que sustenta que os crentes vivos serão arrebatados na segunda vinda de Cristo, com o arrebatamento ocorrendo ao final da grande tribulação. Os principais defensores dessa posição, ao longo da história, incluem o Didaquê, o Pastor de Hermas, a Epístola de Barnabé, Justino de Roma, Irineu de Lyon, Tertuliano, e atualmente, George Ladd, Robert Gundry e Douglas Moo..[8]






O pré-milenismo
dispensacional

O pré-milenismo dispensacional teve sua origem na Inglaterra, no século XIX, principalmente através dos ensinamentos de Edward Irving e John Nelson Darby. Essa teologia foi amplamente divulgada por diversos pregadores conhecidos, como C. I. Scofield. Embora essa posição compartilhe várias semelhanças com o pré-milenismo histórico, existem diferenças significativas entre elas.

Os dispensacionalistas defendem que apenas eles mantêm uma interpretação estritamente literal das Escrituras. Como resultado, costumam acusar teólogos que adotam outras perspectivas escatológicas de "espiritualizarem" a Bíblia. Dessa maneira, algumas denominações e organizações missionárias que seguem o dispensacionalismo não reconhecem amilenistas ou pós-milenistas como ministros ou missionários. A Bíblia de Referência de Scofield é um exemplo da influência desse movimento.[9] Também fez com que o dispensacionalismo viesse a ser conhecido como sinônimo de fundamentalismo.[10]


Uma das doutrinas que se destaca no dispensacionalismo é a noção do arrebatamento da igreja antes da Grande Tribulação, que será explorada posteriormente. Essa doutrina está intimamente relacionada com a separação clara que os dispensacionalistas fazem entre Israel e a igreja. De acordo com essa perspectiva, Jesus ofereceu um reino físico aos judeus em sua primeira vinda. Contudo, após ser rejeitado por eles, o reino foi postergado e Deus iniciou um novo plano: a instituição da dispensação da igreja. Assim, Jesus estendeu a proposta de salvação aos gentios em virtude da recusa dos judeus. Esta situação, entretanto, é vista como provisória, já que todas as promessas e profecias do Antigo Testamento referentes a Israel devem ser cumpridas de forma literal. Além disso, os dispensacionalistas demonstram grande atenção pela história do moderno Estado de Israel, fundado em 1948, considerando-o o cumprimento das profecias do Antigo Testamento.

A característica principal dessa abordagem é a forma de segmentar as Escrituras em dispensações. O termo é compreendido da seguinte maneira: embora “dispensação” se traduza literalmente como “administração” ou “mordomia”, derivado do grego  oikonomia (Ef 3.2), os dispensacionalistas o utilizam para definir “um período de tempo durante o qual o homem é testado em sua obediência a uma revelação específica da vontade de Deus”, conforme a definição de Scofield [...]. Cada uma dessas dispensações, segundo a crença deles, termina com o insucesso humano e o inevitável juízo divino.[11]
Embora existam variações, de modo geral, os defensores dessa perspectiva ressaltam sete dispensações bíblicas:

1. A dispensação da inocência ou dispensação edênica, que começa com a criação do homem e termina com a queda.

2. A dispensação adâmica, também conhecida como dispensação da consciência ou da autodeterminação. Aqui, o homem, ao distinguir entre o bem e o mal, assume responsabilidade por suas decisões diante de Deus.

3. A dispensação noaica, ou dispensação do governo humano, que envolvia organizar a sociedade de maneira que houvesse autoridades civis para evitar a anarquia e conduzir os homens a Deus. Essa fase vai do dilúvio até a torre de Babel.

Essas três primeiras dispensações são consideradas universais, aplicando-se a toda a humanidade e não apenas a um grupo específico.

4. A dispensação abraâmica, ou dispensação da promessa, em que Deus escolheu Abraão e estabeleceu um povo particular a quem concedeu responsabilidades através de um pacto incondicional, passando esse legado de Abraão para Isaque e este para Jacó.

5. A dispensação mosaica, ou dispensação da lei, concedida exclusivamente ao povo de Israel, enquanto as demais nações mantiveram um governo sobre si mesmas, similar ao que as nações ímpias fazem até hoje. Essa dispensação abrange o tempo desde a entrega da lei a Moisés até a morte de Cristo.

6. A dispensação da igreja, ou dispensação da graça, que estabelece um novo povo chamado igreja, vigente até os dias atuais. Diferentemente da lei, a mordomia desta dispensação é responsabilidade da igreja e não de Israel ou das demais nações. É importante notar o período da grande tribulação, que se situa entre a dispensação da igreja e a próxima dispensação. Este período de sete anos, dividido em duas partes — uma de paz, com o reconhecimento de Israel como nação, e outra de perseguição ao povo de Deus pelo anticristo, juntamente com a ira divina contra os não-cristãos — não se encaixa na dispensação da igreja, uma vez que esta será arrebatada antes da grande tribulação, e igualmente não se insere na dispensação do milênio, que ainda não terá começado.

A visão mais comum sobre a posição dispensacional da igreja em relação à grande tribulação é o pré-tribulacionismo, que, em termos gerais, afirma que Cristo virá para sua igreja antes de retornar com ela.[12]
A primeira fase do retorno de Cristo é conhecida como arrebatamento, enquanto a segunda é denominada revelação. A atenção se concentra na iminência do arrebatamento oculto da igreja, que acontecerá antes do início da grande tribulação.[13]  Os principais proponentes dessa visão incluem John F. Walvoord, J. Dwight Pentecost, John Feinberg, Paul Feinberg e Charles C. Ryrie. Alguns dispensacionalistas adotam uma perspectiva chamada mid-tribulacionismo, que é considerada uma posição intermediária entre o pré-tribulacionismo e o pós-tribulacionismo. Essa perspectiva afirma que a igreja será arrebatada no meio da tribulação, antes da fase mais intensa da grande tribulação. Os defensores dessa posição incluem Gleason L. Archer, J. Oliver Buswell e Merrill C. Tenney.

Há também quem defenda que esse período representa uma dispensação em que a característica marcante será a ira divina derramada sobre as nações inimigas de Israel, que enfrentará aflições sem precedentes. Este será um momento em que Deus irá ajustar contas com os gentios rebeldes, o Israel incrédulo e a falsa igreja que não reconhece Jesus Cristo como seu único Senhor. O período de tribulação culmina em julgamento, preparado por meio da dispensação do governo humano, a dispensação da promessa e a dispensação da igreja, a fim de que, ao iniciar a próxima dispensação, permaneçam apenas os verdadeiros crentes.

O período é conhecido como a dispensação do reino ou dispensação do milênio, que se estenderá por mil anos. O milênio representa o objetivo de todas as dispensações anteriores. A justiça, a paz e a prosperidade serão características dessa dispensação, onde Jesus exercerá o governo sobre todas as coisas. O reino de Deus, perdido pela humanidade na primeira dispensação, e que não foi recuperação com sucesso nas outras cinco, será restaurado pelo poder de Cristo, e não por esforços humanos. Ao final deste período, após a libertação de Satanás, ocorrerá a derrota definitiva dele, a ressurreição dos ímpios e o julgamento final. Com o término desta dispensação, dará início o estado eterno.


Alguns dos primeiros dispensacionalistas nos Estados Unidos foram C. I. Scofield, Amo C. Gaebelein e Lewis S. Chafer. Entre os cristãos contemporâneos que defendem essa perspectiva, encontram-se John F. Walvoord, J. Dwight Pentecost, Charles C. Ryrie, Norman Geisler, J. Scott Horrell, Walter C. Kaiser, Francis Schaeffer e John MacArthur Jr. 

Referência: Franklin Ferreira e Alan Myatt. Teologia Sistemática — editora: Vida Nova, SP. 2007, pp 101-1102; 1107-1108.


[1] Veja, no Diálogo com Trifão, 40 e 51, Justino, apesar de ser um defensor do milenarismo, reconhece que muitos cristãos ortodoxos não aceitam essa doutrina. Como mencionado em Diálogo com Trifão, 81-82, especialmente na passagem 80.2: “Já te disse que eu e muitos outros acreditamos dessa maneira, e temos plena certeza que assim ocorrerá. Contudo, também te indiquei que existem muitos cristãos, com mentalidade pura e devota, que rejeitam essas ideias.”

[2] Cf. Adversus Haereses,V .33-36.
[3] Adversus Marcionem,IV.39.
[4] Cf.  H istória eclesiástica,VII.14.1-3;
VII.24.6-8.
[5] Cf.  De Príncipiis,II. 11.2.
[6] Cf. J. Scott HorrelI, Apostila de teologia sistem ática,p. 116.
[7] Iain Murray,  Thepuritan hope,p. 52-53.
[8] Millard J. Erickson,  Opções
contemporâneas na escatologia; um estudo do milênio, p. 118-131. Ele ainda diz:
“O pós-tribulacionismo, como o pré-tribulacionismo, é primariamente uma
subdivisão do pré-milenismo. Tecnicamente, todos os não-pré-milenistas são
pós-tribulacionistas. Poucos não-pré-milenistas, no entanto, preocupam-se com a
idéia de uma tribulação” (p. 118).[9]
Cf. A B íblia de referência de Scofield,William W. Walker (ed.).
[10] Cf. Millard J. Erickson,  O pções
contemporâneas na escatologia,p. 95: “Provavelmente, a popularização mais eficaz do dispensacionalismo
foi a Bíblia de Referência de Scofield. No começo do século xix, havia poucas Bíblias
disponíveis com ‘ajudas’. Procure imaginar a prédica do leigo típico. Conhece
algumas histórias bíblicas, mas tem dúvidas acerca de sua ordem cronológica ou
ambiente geográfico, ou, ainda mais provavelmente, tem dúvidas quanto ao
significado de muitas passagens doutrinárias. Quando, pois, obtém uma Bíblia
com um esboço juntamente com o texto e com notas explanatórias ao rodapé de
cada página, fica muito alegre. Naturalmente, tem forte atração para qualquer
pessoa que não tem comentários ou que acha inconveniente carregar um comentário
consigo. Scofield tinha 
convenientemente combinado o
texto e o comentário num só volume. Não surpreende que algumas pessoas achassem
conveniente lembrar-se de que leram ou não alguma coisa no rodapé (nas notas)
ou no meio da página (no texto). A interpretação de Scofield veio a ser
amplamente adotada nos círculos fundamentalistas [americanos]. Em algumas igrejas,
até se pode ouvir o farfalhar de muitas páginas sendo viradas simultaneamente,
porque tantas pessoas levam a Bíblia de Scofield. Não é totalmente desconhecida
a situação em que um pastor, para citar a localização de uma passagem, dá o
número da página ao invés de citar o livro, capítulo e versículo!”
[11] João Alves dos Santos, O dispensacionalismo e suas implicações doutrinárias, disponível
em http://www.ipcb.org.br/ Publicacoes/o_dispensacionalismo.htm#_ftnref25,
acessado em 12.06.2007.
[12] Iain Murray,  The puritcm hope, p. 200,
diz que é necessário levar em consideração que esse “arrebatamento secreto e
iminente” não deixa de ser “uma crença curiosa, praticamente desconhecida na
história antiga da teologia”. Sobre a crença do arrebatamento secreto ele
escreve: “É claro que nenhum grupo cristão fez dela um tema de fé antes do
século xix” (p. 286). Para um entendimento do dispensacionalismo como uma
“inovação conservadora”, cf. George Marsden, 
Understanding fundamentalism an d evangelicalism, p. 39-41.
[13]Talvez quem mais tenha feito para popularizar esta posição, nos últimos anos,
seja a famosa série de treze volumes, escrita por Tim LaHaye e Jerry
Jenkins,  D eixados p a ra
trás,publicados no Brasil pela United Press. Cf. a resenha de Mauro Fernando
Meister sobre o primeiro volume da série “Deixados para trás: Uma Ficção dos Últimos
D ias” (São Paulo: United Press, 1997), em F ides Reformadav.4, n.2, p.
192-194. Nesta obra, LaHaye afirmou:  “D
eixados p a ra trás éo primeiro relato ficcional dos eventos que é fiel à
interpretação literal da profecia bíblica. Foi escrito para qualquer pessoa que
ame a ficção atraente, apresentando personagens verossímeis e um enredo
dinâmico que também inclui acontecimentos proféticos em uma história
fascinante” (p. 192).