Êxodo 21.20-21, esta lei foi Deus que deu, ou foi Moisés?
Por que Deus Permitiria a Escravidão?
A Lei de Êxodo 21:20-21: Uma Perspectiva Histórica e
Teológica
A compreensão das leis contidas na Bíblia, especialmente
aquelas que parecem duras ou desatualizadas, é um desafio para muitos. Um
exemplo disso é a lei encontrada em Êxodo 21:20-21, que diz: "Se alguém
ferir o seu escravo ou a sua escrava com pau, e o escravo morrer debaixo da sua
mão, será punido; porém se sobreviver por um ou dois dias, não será punido,
porque é dinheiro seu." Para entender essa passagem, é fundamental
reconhecer sua origem e contexto.
A Origem da Lei
Afirmamos que essa lei é de origem divina. O capítulo 21 de
Êxodo começa com a frase: “São estes os estatutos que lhes proporás” (Êx 21.1).
Isso se dá após um contexto onde Deus fala ao povo no Monte Sinai, conforme
indicado no final do capítulo 20. O capítulo 24 confirma que Moisés escreveu
"todas as palavras do Senhor" (Êx 24.4). Portanto, Êxodo 21 faz parte
do que é conhecido como "Livro da Aliança", que abrange leis civis,
criminais e cerimoniais que Deus ditou diretamente a Moisés.
No Novo Testamento, a autoria divina da lei é reafirmada.
Jesus se refere a toda a Lei como "lei de Moisés", mas reconhece que
sua origem é divina. Um exemplo disso é quando Ele diz: "Moisés vos deu a
circuncisão, não que fosse de Moisés, mas dos pais" (Jo 7.22). Paulo também
a chama de "lei de Deus" (Rm 7.22).
O Papel de Moisés
Moisés desempenhou o papel de mediador entre Deus e o povo. Quando os israelitas ouviram a voz de Deus no Sinai, ficaram aterrorizados e pediram a Moisés: "Fala tu conosco, e ouviremos; não fale Deus conosco, para que não morramos" (Êx 20.19). Assim, Deus ditava as leis, Moisés as escrevia e as transmitia ao povo. Por isso, a Lei é referida tanto como "Lei de Deus" quanto "Lei de Moisés".
A Lei de Êxodo 21:20-21 em Seu Contexto
Embora essa lei possa parecer severa à luz dos padrões
contemporâneos, era, na verdade, uma inovação e uma proteção no contexto do
Antigo Oriente. Antes dessa lei, os escravos eram vistos meramente como
propriedade, e seus donos podiam matá-los sem enfrentar punição. Com a
implementação dessa lei, se um dono matasse seu escravo instantaneamente, ele
enfrentaria consequências — uma forma de vingança ou punição.
Além disso, a lei introduziu um limite temporal: se o escravo
sobrevivesse por um ou dois dias após a agressão, isso indicaria que não houve
intenção de matar. Essa mudança conferiu ao escravo um status jurídico mínimo,
algo que não existia anteriormente.
É importante ressaltar que essa lei era uma "case
law", ou seja, uma legislação que limitava abusos já existentes na
sociedade da época. Não representava o ideal de Deus conforme descrito em
Gênesis 1:27, mas regulava uma realidade caída até a vinda de Cristo, que
aboliu a escravidão no coração das pessoas (Fm 1.16).
Em resumo, a lei de Êxodo 21:20-21 foi dada por Deus e
transmitida por Moisés como uma forma de conter o mal em uma sociedade do
século 15 a.C. Ela não deve ser vista como uma expressão do padrão moral eterno
de Deus, mas sim como uma resposta à realidade da época. Jesus trouxe uma revelação
mais completa do padrão moral divino em Seus ensinamentos (Mt 5.38-39),
mostrando que a verdadeira essência da Lei vai além da letra e busca restaurar
o amor e a dignidade entre as pessoas.
Por que Deus Permitiria a Escravidão? Uma Reflexão Teológica
A questão da escravidão na Bíblia é um tema que gera muitas
controvérsias e debates. Afinal, como um Deus amoroso e justo poderia permitir
a existência de instituições tão cruéis? Neste artigo, vamos explorar três
motivos principais que ajudam a entender essa complexa questão, sem afirmar que
"Deus gosta de escravidão".
1.
A Lei Regula o Mal, Não Cria o Mal
Jesus, em Mateus 19:8, nos ensina que a Lei foi dada como uma
resposta à dureza do coração humano: "Por causa da dureza do vosso
coração, Moisés vos permitiu repudiar vossa mulher; mas no princípio não foi
assim". Essa lógica se aplica à escravidão. Quando Deus se revelou a um
povo que havia passado 400 anos em escravidão, Ele não instituiu a escravidão,
mas ofereceu uma maneira de regular essa realidade já existente.
Por exemplo, em Êxodo 21:20-21, a Lei não diz
"escravizem", mas estabelece que se um escravo for morto pelo seu
dono, este deve pagar com a vida. Isso era revolucionário para a época, visto
que o Código de Hamurabi previa apenas uma multa para o assassinato de um
escravo. Aqui, Deus introduz um "primeiro degrau" na moralidade: de
matar escravos impunemente para ser punido com a morte. Esse processo culmina
na mensagem de Cristo em Gálatas 3:28, onde não há mais distinção entre escravo
e livre.
2.
Deus Trabalha com Progresso Revelacional
Deus não revelou todo o Seu plano de uma só vez. Em Hebreus
1:1-2, vemos que Ele se comunicou com a humanidade em diferentes épocas e de
várias maneiras. Quando Israel saiu do Egito, eles estavam imersos em práticas
bárbaras e precisavam de um processo gradual de educação espiritual.
Esse progresso pode ser visto em passos claros:
- Passo 1: "Não mate escravo à toa" (Êxodo 21:20).
- Passo 2: "No 7º ano, liberte todo hebreu escravo"
(Deuteronômio 15:12).
- Passo 3: "Quem sequestrar homem para vender,
morre" (Êxodo 21:16).
- Passo 4: Jesus ensina: "Tratem os outros como querem
ser tratados" (Mateus 7:12).
- Passo 5: Paulo afirma: "Onésimo não é mais escravo, é
irmão amado" (Filemom 1:16).
Se Deus tivesse chegado em 1446 a.C. exigindo a abolição da
escravidão, Israel teria sido rapidamente destruído pelas nações ao seu redor.
Assim, Ele optou por um caminho mais longo e gradual: mudar o coração das
pessoas antes de transformar a cultura.
3.
A Lei Revela o Coração do Homem
A Lei de Deus pode parecer horrível quando lida hoje, mas
Paulo nos lembra que ela veio para que "o pecado se mostrasse
excessivamente maligno" (Romanos 7:13). Quando lemos Êxodo 21:20-21 e
sentimos repulsa, essa é a reação correta. É Deus nos mostrando o tipo de mundo
que construímos e as leis necessárias para evitar que nos destruamos.
A Lei serve como um espelho que revela nossa maldade,
enquanto Cristo é a janela que nos mostra a bondade de Deus. Portanto, como
podemos afirmar que Deus é bom mesmo ao dar essa Lei? A resposta está em três
aspectos:
- Proteção: Antes
da Lei, os escravos morriam sem julgamento. Após sua implementação, o dono que
matasse um escravo pagaria com sua própria vida. Isso representa uma evolução
moral significativa.
- Intenção: O
objetivo final sempre foi a liberdade. A Lei aponta para Cristo, que é aquele
que liberta (Gálatas 5:1).
- Contexto: Não podemos julgar uma lei do século XV a.C. com
a ética do século XXI. Devemos compará-la ao veneno que existia na época. Em
relação ao Código de Hamurabi, a Lei de Deus é um avanço moral.
Conclusão
Em resumo, Deus não aprovou a escravidão em Êxodo 21:20-21;
Ele estabeleceu uma pena de morte para o dono de um escravo assassino. Essa foi
uma forma de misericórdia em um mundo sem misericórdia. A pergunta mais
relevante não é "por que Deus deu essa lei?", mas sim "por que
precisávamos de uma lei para entender nossa própria maldade e a necessidade de
um Salvador?".

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