Não Matarás x Ordens de Deus para Matar Mulheres e Crianças no Antigo Testamento – Como Explicar?

 


“Não matarás.” (Êxodo 20:13)

“...não deixarás com vida nada que respire. Antes os destruirás totalmente...” (Deuteronômio 20:16-17)

A Pergunta Central

Muitos se perguntam: Como Deus pode proibir “não matarás” nos Dez Mandamentos e, logo depois, ordenar a Israel que mate homens, mulheres e crianças durante a conquista de Canaã (Josué 6:21; 1 Samuel 15:3; Deuteronômio 20:16-18)? Isso não é uma contradição? Deus estaria violando Sua própria lei?

Essa é uma das objeções mais comuns contra a Bíblia. A resposta exige contexto histórico, exegese cuidadosa e compreensão da soberania de Deus.

1. O que “Não Matarás” Realmente Significa?

O verbo hebraico usado em Êxodo 20:13 é לֹא תִּרְצָח (lo tirtzach) — “Não assassinarás” ou “Não cometerás homicídio”. Não é uma proibição absoluta contra toda e qualquer morte.

A Bíblia distingue claramente:

Assassinato (homicídio ilegal, motivado por ódio, ganância ou vingança) — sempre condenado.

Morte judicial ou guerra santa — autorizada por Deus como Juiz soberano.

Exemplos de mortes aprovadas por Deus no AT: pena de morte para crimes graves (Levítico 20), guerras defensivas e juízo divino. Jesus e os apóstolos confirmam o sentido moral do mandamento (Mateus 5:21-22; Romanos 13:4 — o Estado como “ministro de Deus” para punir o mal).

2. Contexto das Ordens de Conquista em Canaã

Deus não ordenou genocídio por capricho ou racismo. Foram juízos divinos específicos contra nações extremamente corruptas:

Pecados dos cananeus: Idolatria, prostituição cultual, incesto, bestialidade, sacrifício de crianças no fogo (Levítico 18:24-30; Deuteronômio 12:29-31; 18:9-12).

Paciência de Deus: Ele esperou 400 anos até que “a medida da iniquidade dos amorreus” se completasse (Gênesis 15:16). Não foi algo repentino.

Propósito: Proteger Israel da contaminação espiritual (Deuteronômio 20:18) e cumprir a promessa da terra a Abraão.

Esses comandos eram limitados no tempo e espaço — apenas para aquelas nações específicas na conquista da Terra Prometida. Não são um modelo para guerras atuais.

3. O que Dizem os Teólogos?

A maioria dos teólogos evangélicos e reformados explica da seguinte forma:

John MacArthur: Deus tem o direito soberano de dar e tirar a vida. O juízo sobre Canaã foi justo por causa da extrema perversidade. As crianças que morreram foram recebidas na presença de Deus em misericórdia, escapando de uma vida de corrupção e condenação eterna.

R.C. Sproul: Foi uma “guerra santa” única, onde Deus usou Israel como instrumento de Seu juízo justo, semelhante ao Dilúvio ou à destruição de Sodoma.

Gleason Archer (em Encyclopedia of Bible Difficulties): Não se trata de contradição moral. O mandamento proíbe assassinato humano arbitrário, mas Deus, como Criador e Juiz, tem autoridade para executar juízo coletivo.

Hernandes Dias Lopes e Augustus Nicodemus: Enfatizam a santidade de Deus e a gravidade do pecado. O que parece cruel aos nossos olhos modernos era justiça contra o mal absoluto, e serviu como lição de separação do pecado.

Alguns estudiosos (como certos teólogos mais liberais) argumentam que nem todos os textos são literais ou que se trata de linguagem hiperbólica de guerra antiga, mas a visão majoritária conservadora afirma que os eventos foram reais e justos.

Deus é soberano sobre a vida: “Eu mato e eu faço viver” (Deuteronômio 32:39). Toda vida pertence a Ele.

O pecado tem consequências graves: A destruição de Canaã mostra que Deus não tolera o pecado indefinidamente.

Progressão da revelação: No Novo Testamento, a ênfase muda para graça, amor aos inimigos (Mateus 5:44) e evangelização. A igreja não recebe ordem para guerras santas.

Todos merecem juízo: Romanos 3:23 e 6:23 — se não fosse pela graça em Cristo, todos estaríamos condenados.


Essa questão nos desafia a confiar na justiça e bondade de Deus mesmo quando não entendemos completamente Seus caminhos (Isaías 55:8-9). O mesmo Deus que ordenou juízo em Canaã enviou Seu Filho para morrer por pecadores — inclusive por nós.

Em vez de julgar Deus pelos nossos padrões modernos, devemos nos ajoelhar diante de Sua santidade. O evangelho é a resposta: em Cristo, o juízo que merecemos foi colocado sobre Ele.

Que este estudo nos leve a temer o pecado, adorar a justiça de Deus e proclamar Sua misericórdia em Jesus Cristo!

#Teologia #DezMandamentos #ConquistaDeCanaã #JustiçaDeDeus #SoberaniaDivina

Referências

ARCHER, Gleason L. Enciclopédia de Dificuldades Bíblicas. Tradução. São Paulo: Vida, [edição consultada].

BÍBLIA. A Bíblia Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida. Revista e Corrigida. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, [s.d.].

GOTQUESTIONS. Por que Deus ordenou a morte de tantas pessoas no Antigo Testamento? GotQuestions.org, [s.d.]. Disponível em: https://www.gotquestions.org/Portugues/Deus-ordem-matar.html. Acesso em: 14 maio 2026.

LOPES, Hernandes Dias. Deuteronômio: comentário expositivo. São Paulo: Hagnos, [ano conforme edição].

MACARTHUR, John. Deus e o mal. Sermões e escritos disponíveis em plataformas evangélicas.

SPROUL, R.C. A santidade de Deus. São Paulo: Editora Fiel, [edição consultada].

THE GOSPEL COALITION. How Could God Command Genocide in the Old Testament? The Gospel Coalition, 2013. Disponível em: https://www.thegospelcoalition.org. Acesso em: 14 maio 2026.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Compartilhe este conteúdo com os seus amigos