“Prega a palavra, insta a
tempo e fora de tempo, redargui, repreende, exorta com toda a longanimidade e
doutrina.” (2 Timóteo 4:2, Almeida Revista e Corrigida)
“...aprouve a Deus salvar os
crentes pela loucura da pregação.” (1 Coríntios 1:21)
Contexto Histórico
e Literário
A pregação cristã, desde o Novo Testamento até o século XX,
sempre foi entendida como *kerygma* – uma proclamação clara, pública e
autoritativa da mensagem do evangelho. No contexto do Império Romano, onde o
apóstolo Paulo atuava, a pregação acontecia em sinagogas, praças públicas,
escolas (como a de Tirano, Atos 19:9) e casas, sem qualquer recurso sensorial
adicional. O foco era a exposição racional da Escritura, o raciocínio
persuasivo e o poder do Espírito Santo.
No Brasil, a prática de colocar fundo musical durante a
pregação (um som suave ou instrumental tocando ao fundo enquanto o pregador
fala) é relativamente recente. Ela surgiu no final da década de 1980, associada
ao crescimento do neopentecostalismo, aos programas de televisão evangélicos e
ao estilo de “animadores de auditório” e pregadores de milagres que buscavam
criar um ambiente emocional mais intenso. Antes disso, desde Jesus até Billy
Graham, a história da pregação registra apenas a voz clara do pregador, sem
trilha sonora de fundo. A música sempre existiu na igreja (Salmos, hinos), mas
reservada ao momento de adoração coletiva, não ao ensino ou proclamação
doutrinária.
Análise Exegética
do Texto Bíblico
O Novo Testamento descreve a pregação com o termo grego kerygma
(προκύρηγμα), que significa “proclamação pública” ou “anúncio
oficial”, como o de um arauto que grita uma mensagem do rei. Não há
qualquer indício de recursos sensoriais para “ambientar” a palavra.
- 1 Coríntios 1:21: Paulo afirma que Deus escolheu
salvar os crentes “pela loucura da pregação”. O termo grego *kērygmatos*
enfatiza a simplicidade e a clareza da mensagem falada, em contraste com a
sabedoria humana ou espetáculos teatrais. A fé não vem de estímulos emocionais
externos, mas da audição atenta da Palavra (Romanos 10:17: “a fé vem pelo
ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus”.
- 2 Timóteo 4:2: A ordem é “prega a palavra” (kēryxon
ton logon). O verbo kēryssō indica ação direta, urgente e desprovida
de adornos. Paulo instrui Timóteo a ensinar com “toda a longanimidade e
doutrina”, focando no conteúdo, não na atmosfera.
Nos Evangelhos, Jesus ensinava nas sinagogas, montes, casas
e praças sem qualquer menção a música de fundo (Mateus 5–7; Lucas 4:16-21). Em
Atos, Pedro prega em Pentecostes (Atos 2) com poder do Espírito, e Paulo
“discutia e persuadia” (Atos 19:8) – métodos baseados em raciocínio e
exposição, não em som ambiente. A música era valorizada na adoração (Efésios
5:19: “salmos, hinos e cânticos espirituais”), mas sempre separada do
ensino: louvor edifica o coração; pregação instrui a mente.
Misturar os dois pode deslocar o foco da autoridade da
Palavra para a manipulação emocional, transformando a pregação em espetáculo.
Fontes Históricas
da Pregação
A história da Igreja confirma que a pregação sempre
priorizou a clareza da Palavra:
- Igreja Primitiva (séculos I–III): Os cultos
consistiam na leitura pública das Escrituras seguida de discussão e aplicação.
Homilias (explicações) eram raras e breves; a música (geralmente um salmo)
ocorria ao final, nunca como fundo. Os Pais da Igreja (como Justino Mártir e
Tertuliano) descreviam a pregação como exposição simples, sem elementos
teatrais.
- Idade Média e Reforma Protestante (séculos IV–XVI):
Agostinho, em De Doctrina Christiana, ensina pregação como ensino
claro e persuasivo. Lutero e Calvino restauraram a pregação expositiva: sermões
longos, sem música, baseados unicamente na Bíblia. A Reforma rejeitava qualquer
adorno que pudesse distrair da Palavra.
- Século XIX e avivamentos: Charles Spurgeon, D. L.
Moody e outros pregadores de avivamento usavam hinos antes e depois, mas a
pregação era a voz pura do orador.
- Século XX – Billy Graham: Em suas cruzadas mundiais
(1940–2000), havia corais grandiosos, George Beverly Shea e hinos como “Just
As I Am” (usado apenas no apelo final). Durante o sermão, Graham pregava
sem fundo musical – apenas a voz clara e o poder da mensagem. A música servia
para adoração e convite, nunca para “ambientar” a pregação.
Exemplos de Pregadores Brasileiros
Ao longo da história evangélica brasileira, muitos
pregadores fiéis mantiveram a tradição da pregação clara e desprovida de
recursos sensoriais como fundo musical:
Pioneiros pentecostais: Daniel Berg e Gunnar Vingren,
fundadores da Assembleia de Deus no Brasil (1911), pregavam com simplicidade e
poder do Espírito Santo em tendas, ruas e pequenas igrejas, sem qualquer adorno
musical durante a exposição da Palavra. Seu foco era a mensagem pura do
evangelho, o batismo no Espírito e a santidade.
Pregadores expositivos contemporâneos:
Hernandes Dias Lopes (presbiteriano): Conhecido por
suas pregações expositivas profundas, cristocêntricas e cheias de clareza. Ele
prega com ênfase na suficiência da Escritura, sem necessidade de trilha sonora
para sustentar a mensagem.
Augustus Nicodemus (presbiteriano): Um dos maiores
expositores bíblicos do Brasil, professor e teólogo respeitado. Suas pregações
são serenas, densas em doutrina e baseadas exclusivamente na autoridade da
Palavra, priorizando o entendimento racional e a aplicação prática.
Ciro Sanches Zibordi (Assembleia de Deus): Pastor, teólogo
pentecostal clássico e autor de diversos livros. Ele critica abertamente o uso
de fundo musical na pregação, defendendo que a Palavra de Deus é suficiente por
si só e não precisa de “anestesia emocional” ou recursos de animadores de
auditório.
Esses pregadores representam tanto a tradição pentecostal
clássica quanto a reformada, mostrando que a pregação poderosa não depende de
elementos externos, mas da unção do Espírito e da fidelidade ao texto bíblico.
Diferenças entre a Pregação Reformada e a Pregação
Pentecostal
Embora ambas as tradições valorizem a pregação da Palavra de
Deus, elas diferem em ênfase, estilo e abordagem teológica. Essas diferenças
não significam que uma seja superior à outra, mas refletem distintas
compreensões do papel do Espírito Santo, da soberania de Deus e da experiência
cristã.
Ênfase teológica e conteúdo:
A pregação reformada (calvinista/presbiteriana) é fortemente
expositiva e doutrinária. O pregador explica versículo por versículo,
destacando a soberania de Deus, as doutrinas da graça (eleição, depravação
total, graça irresistível etc.) e a centralidade de Cristo. O foco está na
clareza intelectual, na suficiência das Escrituras (sola Scriptura) e na
aplicação prática da doutrina. A pregação é vista como o meio principal de
graça, pelo qual o Espírito Santo opera a regeneração e a santificação.
A pregação pentecostal (clássica) é mais kerigmática e
vivencial. Enfatiza o poder do Espírito Santo, o batismo no Espírito como
experiência subsequente à conversão, os dons espirituais (línguas, cura,
profecia) e a vitória sobre o inimigo. Há maior espaço para testemunhos, unção
imediata e apelo emocional, com o objetivo de provocar uma resposta imediata de
fé e poder.
Estilo e atmosfera:
Reformada: Serena, ordenada, com liturgia mais enxuta
(louvor + pregação expositiva longa). Evita elementos que possam distrair da
Palavra, como fundo musical durante o sermão, priorizando o entendimento
racional e a obra soberana do Espírito através da pregação pura.
Pentecostal: Mais dinâmica, participativa e espontânea. Pode
incluir momentos de oração coletiva, imposição de mãos e manifestação de dons.
No pentecostalismo clássico (como nas Assembleias de Deus antigas), a pregação
também era direta e sem fundo musical; o estilo mais “emocional” com
trilha sonora tornou-se mais comum no neopentecostalismo.
Papel do Espírito Santo:
Reformados: O Espírito atua principalmente por meio da
Palavra pregada e dos sacramentos. Não negam milagres, mas priorizam a obra
ordinária e contínua do Espírito na iluminação e santificação.
Pentecostais: Enfatizam a ação imediata e
sobrenatural do Espírito, incluindo experiências sensíveis e dons carismáticos.
A pregação muitas vezes busca demonstrar o poder do Espírito no agora.
No Brasil, o fundo musical tornou-se comum a partir do final
dos anos 1980, com o neopentecostalismo e a expansão da mídia evangélica (TV,
rádio). O estilo de programas televisivos e “cultos de milagres” adotou
elementos de entretenimento, transformando a pregação em espetáculo emocional.
Antes disso, igrejas históricas e pentecostais clássicas mantinham a tradição
simples da pregação expositiva.
Implicações Teológicas
1. A pregação é ensino, não espetáculo: Assim como o
professor na sala de aula não usa trilha sonora para não distrair o aluno, a
pregação bíblica depende da clareza da Palavra e da obra do Espírito (não de
recursos externos).
2. Distinção entre louvor e pregação: A música
edifica (Efésios 5:19; Colossenses 3:16), mas a pregação proclama. Misturar os
dois pode enfraquecer a autoridade doutrinária e apelar mais à emoção
passageira do que à fé verdadeira.
3. A fé vem pela Palavra: Romanos 10:17 é claro – não
pela música de fundo, mas pela audição atenta do evangelho. Recursos sensoriais
podem criar ilusão de “unção” sem transformação real.
4. Perigo da manipulação: Quando o fundo musical vira
técnica, corre-se o risco de substituir o poder do Espírito pela emoção
induzida.
Reflexão Prática
A pregação bíblica nos convida a voltar ao essencial: a voz
clara da Palavra de Deus, proclamada com autoridade e dependência do Espírito
Santo. Em um tempo de tantos recursos tecnológicos, a igreja é desafiada a
preservar a simplicidade e o poder do kerygma. Que possamos valorizar a
música no seu lugar certo – na adoração – e devolver à pregação a dignidade de
ensinar a verdade sem adornos desnecessários. Assim, a fé será gerada não por
atmosfera, mas pela Palavra viva.
Que o Senhor nos dê pregadores fiéis à Palavra e igrejas que
priorizem o ensino claro!
#Teologia #Pregação #Kerygma #PalavraDeDeus #MúsicaNaIgreja
#FéBíblica #2Timóteo4:2
Referências
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Almeida. Revista e Corrigida. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, [s.d.].
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FERGUSON, Everett. História da Igreja: dos primórdios
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