Capítulo 9
O Sexo Santo: A Intimidade Conjugal
no Plano Perfeito de Deus
Textos base: 1 Coríntios
7:2-5, Hebreus 13:4, 1 Pedro 3:7, Gênesis 1-2, Provérbios 5:18-19, Cantares de
Salomão
Nos capítulos anteriores,
refletimos sobre a liderança do marido que serve, sobre a vocação da esposa
como auxiliadora que edifica o lar, sobre as qualidades que unem e os erros que
afastam um casal. Mas há uma área do casamento que, por muito tempo, foi tratada
como tabu até mesmo dentro das igrejas, e por isso muitos lares cristãos sofrem
sem necessidade: a intimidade sexual.
Há ainda hoje muitos casais
crentes que não aprenderam o que a Bíblia realmente diz a respeito do sexo.
Muitos foram ensinados, de forma errada, que se trata de algo sujo, vergonhoso,
que deve ser suportado apenas para ter filhos — ou algo que se “faz por
obrigação”, sem prazer, sem alegria, sem comunhão. Outros buscam respostas no
mundo, em conteúdos que distorcem o plano divino, e acabam trazendo para o lar
práticas que ferem a alma e desonram a aliança.
A verdade, porém, é muito
mais bela e muito mais santa do que qualquer mito ou exagero: a sexualidade
foi criada por Deus, antes do pecado entrar no mundo, e ela é boa, pura e santa
dentro do casamento.
No Éden, antes da queda
registrada em Gênesis 3, o homem e a mulher já conheciam, já desfrutavam e já
se alegravam com a intimidade conjugal. Deus instituiu o casamento em Gênesis
2:24 — “Deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e
serão ambos uma carne” — e tudo o que Ele fez na criação foi declarado
“muito bom” (Gênesis 1:31). O sexo não é uma consequência do pecado. É um dom
do Pai, desenhado por Ele para abençoar o casal que se une em aliança diante
Dele.
Por isso o autor de Hebreus
escreve, com toda a clareza, em 13:4: “Digno de honra entre todos seja o
casamento, e o leito sem mácula; porque Deus julgará os fornicários e os
adúlteros.” A palavra traduzida aqui como “leito” vem do grego koite,
que significa literalmente a união íntima, a relação onde se concretiza a “uma
só carne”. Deus não só aprova essa união: Ele diz que ela é digna de honra.
O que é pecado, o que é julgado por Ele, é a sexualidade fora da aliança do
casamento — nunca a intimidade fiel, amorosa e santa entre marido e esposa.
Este capítulo é um convite a
deixar para trás a vergonha, os tabus e os ensinos errados, e a descobrir o que
Deus realmente planejou para essa área tão importante do seu casamento.
As quatro bênçãos que Deus ligou à
intimidade conjugal
Muitos casais reduzem o sexo
a uma única finalidade: a procriação. É claro que ter filhos é uma bênção e uma
parte do plano divino — mas é apenas uma das quatro bênçãos que o Senhor ligou
à relação sexual. Quando entendemos todas elas, passamos a valorizar essa área
como realmente merece:
1.
A bênção do companheirismoA
intimidade não é só um ato físico. É o momento mais profundo de cumplicidade
entre o casal: dois corpos, duas almas, duas histórias que se abrem
completamente uma para a outra, sem máscaras, sem reservas. É ali que se
fortalece a amizade que deve estar na base de todo matrimônio forte.
2.
A bênção da unidade — física, emocional e espiritualQuando a
Bíblia diz que serão “uma só carne”, não se refere apenas ao corpo. Essa união
alcança toda a pessoa: alivia tensões, cura feridas emocionais, aprofunda a
comunhão espiritual. Um casal que vive a intimidade segundo Deus tem uma
ligação que nenhuma dificuldade externa consegue quebrar com facilidade.
3.
A bênção da procriaçãoÉ o plano
de Deus para que a família se multiplique, para que novos seres humanos sejam
gerados no ambiente de amor e proteção do lar cristão, e para que os pais
transmitam a fé de geração em geração.
4.
A bênção do prazer e do gozo conjugalSim, Deus
quer que o casal desfrute dessa área! Ele criou o corpo humano com capacidade
de sentir prazer na intimidade, e isso não é acidente. Não é pecado se alegrar
com o cônjuge, não é “menos espiritual” desejar ser amado e amar com
intensidade nesse campo. O Senhor quer que marido e esposa encontrem satisfação
plena um no outro.
O que a intimidade significa para
cada um: entendendo as diferenças
Uma das maiores causas de
frustração nessa área é o casal esperar que o outro pense, sinta e deseje
exatamente como ele. Mas Deus criou homem e mulher diferentes também na forma
como vivenciam a sexualidade — e essas diferenças existem para que eles se
completem, não para que se conflitem.
O que o sexo significa para o homem
Para ele, a relação sexual
está profundamente ligada à sua identidade, à sua segurança e à sua forma de
amar:
5.
Satisfaz o seu instinto natural, dado por Deus
6.
Confirma o seu senso de masculinidade: ele se sente
desejado, aceito, completo como homem
7.
Aumenta o seu amor pela esposa: a intimidade desperta
nele um cuidado ainda maior, um desejo de proteger e honrar quem se entrega a
ele
8.
Reduz tensões no lar: alivia o estresse do dia a dia,
acalma conflitos, traz leveza para a convivência
9.
Proporciona a mais emocionante experiência da vida
conjugal: é a forma mais intensa que ele tem de se doar e receber amor sem
palavras
O que o sexo significa para a
mulher
Para ela, a intimidade está
mais ligada ao vínculo emocional, à segurança e à certeza de ser amada:
10. Confirma o
seu senso de feminilidade: ela se sente desejada, bonita, valorizada como
mulher
11. Assegura-lhe
o amor do marido: para muitas esposas, o toque, o carinho e a entrega do marido
na intimidade são a maior prova de que ele realmente a ama
12. Satisfaz o
seu instinto natural de se doar e se unir a quem escolheu para a vida
13. Proporciona
relaxamento profundo para todo o seu sistema nervoso: acalma ansiedades, cura
cansaços emocionais, traz paz
14. Dá-lhe a
suprema experiência da vida conjugal: é quando ela se sente verdadeiramente
“uma só carne” com o homem que Deus lhe deu
Quando o marido entende que
para a esposa o sexo começa muito antes do momento íntimo — no carinho do dia a
dia, no respeito, na atenção, no diálogo — e quando a esposa entende que para o
marido essa área é uma forma fundamental de se sentir amado e aceito, grande
parte dos conflitos desaparece.
O ajustamento sexual: um
aprendizado de paciência e amor
Nenhum casal nasce sabendo
ser perfeito nessa área. O ajustamento íntimo é um processo de aprendizagem,
que leva tempo, e depende de cinco atitudes básicas:
•
Tempo: não se cobrem por não acertar de
primeira. Cada corpo é diferente, cada história de vida traz marcas, e é normal
levar meses ou até anos para se conhecerem plenamente.
•
Compreensão: não julguem as dificuldades do
outro. Se um tem menos desejo em uma fase, se um demora mais a se entregar, se
um sofre com traumas do passado, a resposta é o acolhimento, nunca a cobrança.
•
Paciência: não tenham pressa. A pressa mata
o prazer, gera ansiedade e faz com que um ou ambos se sintam usados, não
amados.
•
Estudo: busquem conhecimento de fontes
seguras, cristãs e médicas, para entender como funciona o corpo que Deus criou.
Conhecer a fisiologia não é pecado: é honrar o projeto do Pai.
•
Diálogo franco: conversem sobre essa área sem
vergonha, sem acusações. Digam o que gostam, o que não gostam, o que lhes faz
bem, o que lhes machuca. A intimidade perfeita nasce da comunhão, não da
adivinhação.
Cinco princípios para uma vida
sexual abundante, segundo a Palavra
O apóstolo Paulo, em 1
Coríntios 7:3-4, deixa regras claras para que nenhum casal sofra por descuido
nessa área. São princípios simples, mas que transformam completamente a
convivência:
15. Reconheçam
o direito um do outro“O marido cumpra para com a mulher a sua obrigação, e
da mesma sorte a mulher para com o marido.” Nenhum dos dois é dono do
próprio corpo exclusivamente: o corpo do marido pertence também à esposa, e o
corpo da esposa pertence também ao marido. Isso não é dominação: é doação
mútua, direito de ambos receberem amor e satisfação.
16. Nunca
neguem a participação por capricho, punição ou controleO texto
bíblico é claro: a única razão válida para se abster é o consentimento mútuo.
Usar a intimidade como moeda de troca, negar-se para punir o outro por uma
briga, para forçar uma decisão ou para ganhar poder sobre o cônjuge — como
vimos no capítulo anterior, entre os erros que ferem o lar — é um pecado grave,
que abre brecha para o inimigo destruir o casamento. O marido não deve negar-se
para atender a própria vontade, esquecendo o prazer da esposa; a esposa não
deve fechar-se para ferir o marido. Ambos devem buscar o bem um do outro.
17. Perguntem-se
sempre: o que o meu cônjuge precisa nessa área?Não vivam a
intimidade pensando apenas no próprio prazer. Perguntem com carinho, observem,
aprendam com o outro. A maior alegria na relação conjugal não é receber, mas
ver o outro satisfeito, amado e completo por causa da sua doação.
18. O leito do
crente deve viver sob o clima da mais absoluta democraciaNinguém
manda, ninguém obedece por força. Ali, os dois são iguais diante de Deus: dois
servos que se amam, que se doam, que buscam o bem comum. Não há lugar para
exigências, para humilhações, para práticas que um dos dois não aceita ou que
ferem a sua consciência. Tudo deve ser feito com amor, com respeito e com
consentimento pleno.
Quando é lícito se abster da
relação conjugal?
Paulo explica ainda em 1
Coríntios 7 que a abstenção só é válida quando quatro condições se cumprem,
juntas:
19. Por
consentimento mútuo: nenhum dos dois é obrigado a abrir mão contra a sua
vontade
20. Por tempo
determinado: não é para sempre, tem um prazo acordado por ambos
21. Para oração: um tempo
de dedicação especial ao Senhor, buscando a Sua face em conjunto
22. Por doença: quando um
dos dois está impossibilitado por motivo de saúde, e o outro aceita com amor
Fora esses motivos —
especialmente por vingança, por raiva, por controle, por falta de desejo não
conversado — a abstenção fere o plano de Deus e expõe o casal aos ataques de
Satanás, como alerta o próprio apóstolo.
Desfazendo dois mitos que atrasam
muitos casais cristãos
Há dois enganos muito
comuns, que roubam a alegria de milhares de lares. É hora de deixá-los para
trás, à luz da Bíblia:
Mito 1: “O sexo só existe para ter
filhos”
Não é o que a Palavra
ensina. Se fosse assim, Deus não teria dado ao corpo humano capacidade de
prazer fora do período fértil, não teria inspirado o livro de Cantares — que
fala apenas de desejo, de carinho, de admiração mútua, sem nenhuma menção a
filhos — e não teria ordenado em Deuteronômio 24:5: “Quando alguém for
recém-casado, não sairá para a guerra, nem se lhe imporá qualquer cargo; por um
ano ficará livre em casa, para alegrar a mulher que tomou.” Um ano inteiro,
sem obrigações externas, para que o casal se conheça, se ame e desfrute da
intimidade — independentemente de gerar filhos. A procriação é uma bênção, mas
não a única finalidade do leito conjugal.
Mito 2: “Ser espiritual sufoca o
romantismo e o desejo”
Também é mentira. Basta ler
Gênesis 26:8-9: Abimeleque, rei dos filisteus, olhou pela janela e viu Isaque
“brincando” com Rebeca, a sua mulher. A palavra usada ali é a mesma que indica
carinho íntimo, galanteio, desejo — e Isaque era um homem de Deus, temente ao
Senhor. A espiritualidade verdadeira não mata o romantismo: ela o purifica, o
aprofunda, o torna mais bonito. É possível ser profundamente espiritual e, ao
mesmo tempo, ser carinhoso, romântico, desejar e fazer o cônjuge se sentir
desejado com toda a intensidade. O que sufoca o amor não é a fé: é o legalismo,
a frieza, o coração duro.
Lições de Cantares: a Bíblia fala
sim do “como” da intimidade
Muitos cristãos têm medo de
ler Cantares de Salomão porque acham que é um livro “apenas poético”. Mas Deus
o inspirou para nos ensinar que a intimidade conjugal tem detalhes que importam
para Ele. Nele, vemos que a relação não é um ato rápido, mecânico, só para
cumprir uma obrigação. Há um caminho, um tempo, um carinho que honra o corpo do
outro:
23. O despertamento:
o tempo da estimulaçãoCantares está cheio de versos que falam de olhares, de
elogios ao corpo do amado, de toques suaves, de beijos, de palavras que acendem
o desejo (Cantares 1:2; 2:6,14; 4:1-7). Isso significa que o ato conjugal não
começa na hora H: começa muito antes, com o ambiente, com o carinho, com a
atenção que prepara o coração e o corpo do outro para a entrega. Nada de
pressa, nada de frieza: o amor merece tempo.
24. O platô: o
tempo da maior excitação e da entrega mútuaOs versos de Cantares 5:3-5;
7:1-8; 10:11,16 mostram dois corpos que se conhecem, que se admiram, que se
doam completamente um para o outro, sem vergonha, sem culpa. Aqui, aprendemos
também a desfazer exageros: não precisamos copiar práticas do mundo que ferem a
consciência ou desonram o corpo santo que Deus nos deu. Mas podemos — e devemos
— aprender a amar com intensidade, com alegria, com toda a liberdade que a
aliança do casamento permite, sob a bênção do Senhor.
Provérbios 5:18-19 resume
tudo isso com uma beleza única: “Seja bendito o teu manancial, e alegra-te
com a mulher da tua mocidade, como cerva amorosa, e gazela graciosa; saciem-te
os seus seios em todo o tempo; e pelo seu amor sê atraído perpetuamente.”
Um alerta final: santidade e
exclusividade
Não podemos fechar este
capítulo sem lembrar a ordem de Hebreus 13:4: o leito deve ser sem mácula.
Isso significa que a intimidade que Deus abençoa é exclusiva: só entre marido e
esposa, só dentro do casamento, só com práticas que ambos aceitam e que honram
a Deus.
Não há lugar para
pornografia — que mata o desejo pelo cônjuge real e ensina a amar uma fantasia.
Não há lugar para traição, para comparações, para práticas que humilham ou
ferem o outro. Não há lugar para usar o corpo do cônjuge como objeto, sem amor,
sem respeito. Tudo o que fazemos no casamento deve ser para glória de Deus —
inclusive a nossa intimidade.
Lembremos também do que
aprendemos nos capítulos anteriores: o ciúme doentio, a grosseria, a falta de
respeito, a crítica constante, a manipulação — tudo isso envenena a relação
sexual. Não se pode ter uma intimidade santa e abundante se no dia a dia o lar
é um lugar de brigas, de desonra, de feridas não curadas. A vida sexual é
apenas um reflexo do que acontece no resto do casamento.
Desafio final
Ser um casal que vive a
intimidade segundo Deus não é ser perfeito. É ser sincero: reconhecer os erros
do passado, pedir perdão um ao outro, deixar a vergonha de lado e decidir,
juntos, aprender a amar nessa área como o Senhor ensinou.
Antes de fechar, pare um
instante e responda no seu coração:
•
Tenho tratado a intimidade com o meu cônjuge como um
dom santo de Deus, ou como uma obrigação, uma arma ou um direito que eu exijo?
•
Tenho buscado o prazer do outro mais do que o meu
próprio?
•
Temos conversado sobre essa área com franqueza, amor e
sem culpa?
Muitos casais passam a vida
toda sofrendo em silêncio nesse campo, por medo de falar, por vergonha de pedir
ajuda, por acreditar em mentiras que não vêm de Deus. Mas a graça do Senhor é
suficiente para curar toda ferida, para restaurar toda área quebrada, para
ensinar todo casal a amar como Ele ama.
Oração pela intimidade santa
no casamento“Pai, nós Te agradecemos por teres criado o sexo como um dom bom, santo
e abençoado para o casamento. Perdoa-nos por todas as vezes que distorcemos
esse plano Teu: por usarmos a intimidade como arma, por negá-la por vingança,
por buscarmos prazer fora da aliança, por deixarmos o legalismo ou a vergonha
roubarem a alegria que Tu preparaste para nós. Ensina-nos a amar um ao outro
nessa área com sabedoria, com respeito, com paciência e com doação mútua.
Dá-nos graça para conversarmos sem culpa, para nos conhecermos melhor, para
buscarmos sempre o bem um do outro antes do nosso próprio. Faz do nosso leito
um lugar de honra, de unidade, de alegria e de glória para o Teu nome. Em nome
de Jesus, amém.”
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