A Carta aos Filipenses: Caminhos de Alegria, Humildade e Fé
Série: Estudos Exegéticos e Teológicos no Novo
Testamento
O resumo da carta aos filipenses.
Introdução
Há mais de vinte anos, quando iniciei meus estudos
exegéticos no Novo Testamento, a Carta aos Filipenses se revelou para mim não
apenas como um texto de estudo acadêmico, mas como um espelho da experiência
cristã em sua essência mais pura. Escrita pelo apóstolo Paulo durante um
período de prisão — possivelmente em Roma, por volta dos anos 60-62 d.C. —,
essa carta é frequentemente chamada de "epístola da alegria", e não
sem motivo. O que mais impressiona, contudo, não é a repetição da palavra "alegria"
ao longo de suas páginas, mas o fato de essa alegria florescer em solo
aparentemente estéril: nas algemas, na oposição, na distância dos amados e na
incerteza do futuro.
Esta obra nasce da convicção de que Filipenses não é um
tratado abstrato de teologia, mas um manual prático de vida cristã. Paulo não
escreve da perspectiva de quem está no topo do mundo, mas de quem está prestes
a entregar sua vida por causa do evangelho. E, mesmo assim, ele não fala de
amargura, de desespero ou de derrota. Fala de alegria. De humildade. De
unidade. De contentamento.
Ao longo de treze capítulos, percorreremos cada versículo
desta carta, buscando compreender não apenas o que Paulo escreveu, mas o que o
Espírito Santo deseja nos ensinar por meio de suas palavras. Cada capítulo
aprofunda um aspecto da vida com Cristo: desde o chamado inicial à alegria nas
dificuldades, passando pelo exemplo supremo da humildade em Cristo Jesus, até
as instruções práticas sobre como viver em comunidade, como lidar com a
ansiedade e como cultivar o contentamento em qualquer circunstância.
Não se trata, contudo, de uma leitura isolada. Ao longo
destas páginas, recorreremos a fontes exegéticas consolidadas, comentários
bíblicos de referência e estudos teológicos que iluminam o texto sagrado,
sempre com o cuidado de respeitar o contexto histórico, literário e teológico
em que a carta foi escrita. A bibliografia final, organizada segundo as normas
da ABNT, reúne as principais obras consultadas, servindo como convite para que
o leitor aprofunde ainda mais os temas aqui abordados.
Que esta obra seja instrumento de graça. Que, ao
percorrermos juntos estas linhas, possamos ouvir não apenas a voz de Paulo, mas
a voz daquele que é o autor e consumador da nossa fé. E que, ao final desta
jornada, possamos também nós dizer com o apóstolo: "Para mim, viver é
Cristo e morrer é lucro" (Filipenses 1:21).
Capítulo 1 — A Carta aos Filipenses: Um Chamado à Alegria
A Carta aos Filipenses começa com uma saudação que já revela
a relação profunda entre Paulo e a igreja daquela cidade. Escrita por Paulo e
Timóteo, servos de Cristo Jesus, a carta se dirige aos santos em Cristo que
estão em Filipos, juntamente com os bispos e diáconos (1:1). Essa abertura não
é mera formalidade: ao chamá-los de "santos", Paulo reconhece que
eles já eram separados para Deus, não por mérito próprio, mas por união com
Cristo.
Em seguida, o apóstolo expressa sua gratidão constante a
Deus por todos eles, mencionando-os sempre em suas orações (1:3-4). Essa
gratidão não era passageira: era fruto da comunhão que eles tinham no evangelho
desde o primeiro dia até o momento presente (1:5). Paulo tinha a certeza de que
aquele que havia começado neles a boa obra a aperfeiçoaria até o dia de Jesus
Cristo (1:6). Essa confiança não vinha da perfeição dos fiéis, mas da
fidelidade de Deus.
O ponto que mais surpreende no capítulo 1, contudo, é a
alegria de Paulo em meio às algemas. Ele estava preso, e mesmo assim escreve
que suas aflições têm servido para o avanço do evangelho (1:12). A sua prisão
havia se tornado conhecida em toda a guarda pretória e entre todos os demais,
de modo que a maioria dos irmãos, animando-se no Senhor por meio das suas
cadeias, ousava falar a palavra de Deus sem medo (1:13-14). Até mesmo quando
alguns anunciavam Cristo por inveja e contenda, outros porém por boa vontade,
Paulo não se perturbava: "Que importa? De qualquer maneira, seja por
pretexto, seja por verdade, Cristo é anunciado; e nisso me alegro, e de fato me
alegrarei" (1:18).
Ao final do capítulo, Paulo apresenta a perspectiva que
norteia toda a sua vida: "Para mim, viver é Cristo e morrer é
lucro" (1:21). Se continuasse vivendo na carne, isso significaria
trabalho frutuoso; se morresse, estaria com Cristo, o que seria muito melhor.
No entanto, por amor à igreja, ele entendia que era necessário permanecer no
mundo para o progresso e a alegria da fé dos fiéis (1:22-25). Aqui vemos a
essência da vocação apostólica: o bem dos outros está acima do próprio desejo
de estar com o Senhor.
Capítulo 2 — Uma Vida Digna do Evangelho
No capítulo 2, Paulo desenvolve o que significa viver de
forma digna do evangelho de Cristo (1:27). O termo grego usado para
"viver" aqui é politeuomai, que significa "viver como
cidadão". Com isso, Paulo lembra aos filipenses que a sua cidadania está
nos céus (3:20), e por isso devem viver de acordo com as leis e os valores do
reino de Deus, e não conforme os padrões do mundo em que viviam — a cidade de
Filipos era uma colônia romana, e seus habitantes tinham orgulho de sua
cidadania romana. Paulo eleva o conceito: os cristãos têm uma cidadania
superior, e devem viver à altura dela.
A consequência dessa cidadania celestial é a unidade. Paulo
os exorta a permanecer firmes num só espírito, lutando juntos com uma só alma
pela fé do evangelho (1:27). Não devem se deixar intimidar em nada pelos
adversários (1:28), pois isso é sinal de perdição para eles, mas de salvação
para vocês — e isso vem de Deus (1:29). A coragem diante da oposição não é
ausência de medo, mas confiança de que a causa de Deus é invencível.
O capítulo avança para o apelo à unidade afetiva: "Se
existe alguma consolação em Cristo, se há algum refrigério de amor, se há
alguma comunhão no Espírito, se há alguma compaixão e misericórdia, completai a
minha alegria, para que tenhais o mesmo pensamento, tendo o mesmo amor, unidos
de coração, com uma só mente" (2:1-2). A base da unidade não é o
acordo de opiniões, mas a comunhão que vem de Cristo. Para mantê-la, é
necessário abandonar o orgulho: "Nada façais por contenda ou por
vanglória, mas por humildade, cada um considere os outros superiores a si
mesmo; não olhe cada um para os seus próprios interesses, mas também para os
dos outros" (2:3-4).
Capítulo 3 — A Humildade de Cristo: O Exemplo Supremo
A exortação de Paulo de ter a mesma atitude de Cristo nos
leva ao trecho talvez mais profundo da carta: o hino cristológico de Filipenses
2:5-11. Aqui, Paulo apresenta Jesus como o exemplo supremo de humildade, aquele
que, "sendo em forma de Deus, não considerou a igualdade com Deus como
algo a que se devia aferrar, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de
servo, tornando-se semelhante aos homens" (2:6-7).
Esse "esvaziamento" é o que a teologia denomina Kenosis.
Não significa que Jesus deixou de ser Deus, mas que Ele renunciou ao uso
independente dos seus atributos divinos, assumindo a condição humana e se
colocando a serviço do Pai e da humanidade. Ele se humilhou, tornando-se
obediente até a morte, e morte de cruz (2:8). Não houve humilhação maior do que
aquela: a morte de cruz era reservada aos criminosos, aos escravos e aos
inimigos do Império. E foi precisamente ali, no ponto mais baixo da humanidade,
que o amor de Deus se revelou de forma completa.
A humilhação, porém, não foi o fim. Por isso, "Deus
também o exaltou soberanamente e lhe deu o nome que está acima de todo nome,
para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da
terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus
Pai" (2:9-11). A exaltação de Cristo não é recompensa por mérito, mas
consequência da sua obediência perfeita. E o nome que está acima de todo nome é
"Senhor" — o nome que no Antigo Testamento era reservado a Deus
Yahweh. Aqui, Paulo declara com toda clareza a divindade de Jesus.
Capítulo 4 — Brilhe a Luz de Cristo em Meio à Geração Corrompida
A partir do exemplo de Cristo, Paulo tira a consequência
prática: "Portanto, meus amados, como sempre obedecestes, não só na
minha presença, mas muito mais agora na minha ausência, trabalhai a vossa
salvação com temor e tremor" (2:12). A expressão "trabalhai a
vossa salvação" não significa que a salvação se conquista por esforço
próprio. O versículo seguinte explica: "Porque é Deus quem opera em vós
tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade" (2:13). A
ação humana não anula a ação divina; ao contrário, ela nasce dela. O
"temor e tremor" não é medo de condenação, mas reverência diante da
obra de Deus que se realiza em nós.
Essa salvação operada por Deus se manifesta na forma de
viver no mundo. Paulo admoesta: "Fazei tudo sem murmurações e
contendas, para que vos torneis irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus
imaculados no meio de uma geração corrupta e perversa, entre a qual brilhai
como luzeiros no mundo, retendo a palavra da vida" (2:14-16). A igreja
está no mundo, mas não deve ser do mundo. Em um ambiente marcado pela quebra de
valores, pela inveja e pela desunião, os cristãos devem ser como luzes que
brilham na escuridão. E a fonte dessa luz é a palavra da vida, que eles guardam
e proclamam publicamente.
A santificação não é algo que se vive em segredo. Ela se
torna visível na maneira de falar, de trabalhar, de se relacionar. Quando os
cristãos vivem em humildade, unidade e integridade, eles revelam o caráter de
Deus a uma geração que não o conhece. E isso é o testemunho mais poderoso que
existe.
Capítulo 5 — Exemplo de Servos Fiéis: Timóteo e Epafrodito
No capítulo 2, Paulo apresenta dois exemplos concretos de
como viver o ensino que acabara de dar: Timóteo e Epafrodito. Eles não são
personagens secundários; são modelos de serviço que a igreja deve observar e
imitar.
A respeito de Timóteo, Paulo diz: "Porque não tenho
ninguém de igual a ele, que se preocupe sinceramente com o vosso bem-estar.
Pois todos buscam os seus próprios interesses, e não os de Jesus Cristo"
(2:20-21). Timóteo não agia por interesse próprio, nem por busca de
reconhecimento. O seu cuidado era sincero, desprendido. Ele havia servido com
Paulo no evangelho como filho a pai (2:22), e por isso Paulo confiava nele como
a ninguém mais. Aqui vemos o que significa ser líder na igreja: não é buscar
poder, mas cuidar do rebanho com dedicação total.
O outro exemplo é Epafrodito, enviado pelos filipenses para
auxiliar Paulo. Paulo o chama de "meu irmão, cooperador e companheiro
de lutas, e o vosso enviado e servidor das minhas necessidades"
(2:25). Ele havia estado doente, à beira da morte, mas não por negligência
própria: "Pois ele esteve doente e quase à morte por causa da obra de
Cristo, arriscando a vida para suprir o que faltava ao vosso serviço para
comigo" (2:30). Epafrodito não mediu esforços; arriscou a própria vida
para cumprir a missão que lhe foi confiada.
Paulo conclui: "Recebei-o, pois, no Senhor, com toda
a alegria; e honrai a homens como ele" (2:29). A igreja não apenas
deve aceitar esses servos, mas deve honrá-los. Reconhecer o sacrifício daqueles
que servem ao Senhor é parte essencial da comunhão cristã.
Capítulo 6 — Guardando-se dos Falsos Mestres
No capítulo 3, Paulo faz uma virada importante: ele emite um
alerta sério contra os falsos mestres que ameaçavam a igreja. "Meus
irmãos, alegrai-vos no Senhor. Para mim não me canso de escrever-vos as mesmas
coisas, e para vós é segurança" (3:1). A repetição não é sinal de
tédio, mas de cuidado: Paulo sabe que a igreja precisa ser constantemente
lembrada dos fundamentos da fé.
O perigo vinha dos que defendiam a circuncisão como condição
necessária para a salvação. Paulo os chama de "cães", "maus
obreiros" e "mutiladores" (3:2) — termos duros, mas necessários,
pois eles estavam distorcendo o próprio evangelho. Contra esse legalismo, Paulo
declara: "Porque nós é que somos a circuncisão, nós que adoramos pelo
Espírito de Deus, e nos gloriamos em Cristo Jesus, e não confiamos na
carne" (3:3). A verdadeira circuncisão não é a do corpo, mas a do
coração (Romanos 2:28-29). A adoração verdadeira é movida pelo Espírito, e a
confiança não está em nenhuma prática humana, mas unicamente em Cristo.
Para mostrar que não falava por falta de conhecimento sobre
a lei, Paulo apresenta os seus próprios credenciais: circuncidado ao oitavo
dia, da raça de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; quanto à lei,
fariseu; quanto ao zelo, perseguidor da igreja; quanto à justiça que há na lei,
irrepreensível (3:5-6). Se alguém podia confiar na carne, era ele. Mas Paulo
conclui: "Mas o que para mim era ganho, isto considerei por perda por
amor de Cristo" (3:7). Todos os seus méritos, títulos e posições — que
eram vistos como vantagens — tornaram-se lixo diante da excelência do
conhecimento de Cristo Jesus, seu Senhor (3:8).
Capítulo 7 — O Alvo Supremo: Conhecer a Cristo
A rejeição à autoconfiança leva Paulo ao que é o centro da
sua vida espiritual: conhecer a Cristo. Ele escreve: "E, sim, tudo
considero como perda pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu
Senhor; pelo qual sofri a perda de todas as coisas, e as considero como refugo,
para que possa ganhar a Cristo e ser achado nele, não tendo justiça própria,
que vem da lei, mas a que é pela fé em Cristo, a justiça que vem de Deus,
baseada na fé" (3:8-9).
Conhecer a Cristo não é apenas saber sobre Ele; é ter uma
relação viva com Ele. É participar do seu sofrimento, ser semelhante à sua
morte, para chegar à ressurreição dos mortos (3:10-11). Isso não significa que
Paulo já tivesse alcançado a perfeição: "Não que já a tenha alcançado,
ou que já seja perfeito; mas prossigo para alcançá-lo, para o que também fui
alcançado por Cristo Jesus" (3:12). A vida cristã é sempre uma
caminhada: fomos alcançados por Cristo, e agora corremos para o alvo.
A chave para essa corrida está no versículo 13-14: "Uma
coisa faço: esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as
que estão adiante, prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de
Deus em Cristo Jesus." O passado — seja ele de sucessos ou de
fracassos — não pode nos prender. O cristão olha para frente, para o alvo que é
Cristo, e corre em direção ao prêmio. A maturidade cristã consiste em
reconhecer que ainda não chegamos, mas que Deus nos dá a graça de continuar
correndo.
Capítulo 8 — Unidade e Alegria no Senhor
No início do capítulo 4, Paulo faz um apelo direto a duas
mulheres da igreja: Evódia e Síntique. "Rogo a Evódia e rogo a Síntique
que tenham o mesmo pensamento no Senhor" (4:2). Não sabemos qual era o
conflito entre elas, mas sabemos que ambas trabalharam com Paulo no evangelho
(4:3). O fato de Paulo mencioná-las mostra que mesmo os servos mais dedicados
podem ter desentendimentos. E a solução não é afastar-se, mas buscar a mesma
mente de Cristo.
A seguir, Paulo lança um mandamento que se torna o fio
condutor de todo o capítulo: "Alegrai-vos sempre no Senhor; outra vez
digo: alegrai-vos" (4:4). A alegria não é uma sugestão; é um
mandamento. E o "sempre" significa que ela não depende das
circunstâncias. A razão dessa alegria é a proximidade do Senhor: "O
Senhor está perto" (4:5). Ele não está distante; está ao nosso lado, e
isso basta para que nos alegremos.
Junto com a alegria, Paulo pede a moderação: "Seja a
vossa moderação conhecida de todos os homens" (4:5). A palavra grega
para moderação aqui é epieikes, que significa "amabilidade",
"gentileza", a capacidade de não exigir os próprios direitos, de ser
compreensivo com os outros. É o oposto da rigidez e da arrogância. Quem vive na
presença do Senhor trata os outros com gentileza, mesmo aqueles que não são
gentis com eles.
Capítulo 9 — A Paz de Deus Guarda o Coração
Um dos textos mais conhecidos da carta vem em seguida: "Não
andeis ansiosos por coisa alguma; antes em tudo sejam os vossos pedidos
conhecidos diante de Deus pela oração e súplica com ação de graças"
(4:6). A ansiedade é o oposto da confiança. Ela nasce de olhar para os
problemas em vez de olhar para Deus. Paulo não diz que não teremos
dificuldades, mas diz que não devemos nos deixar dominar por elas. A
alternativa à ansiedade não é a força de vontade, mas a oração.
E a oração deve ser acompanhada de ação de graças. A
gratidão muda a perspectiva: em vez de nos concentrarmos no que falta,
lembramo-nos do que Deus já fez. E a promessa é extraordinária: "E a
paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e as
vossas mentes em Cristo Jesus" (4:7). Essa paz não é a ausência de
problemas; é uma proteção divina que mantém o coração e a mente estáveis mesmo
no meio da tempestade. Ela "guarda" — como um soldado que vigia — os
sentimentos e os pensamentos, impedindo que o medo e a preocupação tomem conta.
É uma paz que o mundo não pode dar nem tirar, porque vem de Deus.
Capítulo 10 — O Pensar Cristão: O Que Ocupa a Sua Mente?
A paz de Deus está ligada ao que ocupa a nossa mente. Paulo
continua: "Finalmente, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é
respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o
que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso
pensai" (4:8). Aqui está o filtro mental que todo cristão deve
aplicar. Não é proibir a mente de pensar, mas direcionar o pensamento para o
que é bom.
Cada um dos oito adjetivos que Paulo usa nos dá um critério
de avaliação:
•
Verdadeiro: aquilo que corresponde à
realidade de Deus e da sua palavra;
•
Respeitável: aquilo que é digno de
reverência;
•
Justo: aquilo que está de acordo com a
retidão de Deus;
•
Puro: aquilo que não corrompe nem mancha;
•
Amável: aquilo que promove o amor e a
harmonia;
•
De boa fama: aquilo que tem bom
testemunho;
•
Virtude: aquilo que revela o caráter de
Deus;
•
Louvor: aquilo que edifica e dá glória ao
Senhor.
E não basta apenas pensar: "O que também aprendestes
e recebestes e ouvistes e vistes em mim, isso fazei; e o Deus da paz será
convosco" (4:9). A fé se prova na prática. O ensino apostólico não era
apenas palavra; era exemplo. E quando vivemos o que aprendemos, a presença de
Deus nos acompanha.
Capítulo 11 — Contentamento em Toda e Qualquer Situação
Paulo agradece o apoio que os filipenses lhe enviaram, e
aproveita para compartilhar uma das verdades mais profundas da vida espiritual:
o contentamento. "Regozijei-me grandemente no Senhor de que agora
finalmente renovastes o vosso cuidado de mim; do qual também cuidáveis, mas não
tínheis oportunidade. Não que fale por necessidade, porque aprendi a viver
contente em toda e qualquer situação" (4:10-11).
O contentamento não é uma qualidade que nasce
espontaneamente; é algo que se aprende. Paulo diz: "aprendi". E
aprendeu em todas as circunstâncias: "Sei estar abatido, e sei também
ter abundância; em tudo e por tudo estou instruído, tanto a ser fartado como a
ter fome, tanto a ter abundância como a sofrer necessidade" (4:12). O
contentamento não depende do que temos, mas de quem temos. Não é a ausência de
dificuldades, mas a confiança de que Deus é suficiente em todas elas.
Daí vem a declaração que é fonte de força para milhões de
cristãos: "Posso todas as coisas naquele que me fortalece"
(4:13). É importante entender o contexto: Paulo não está dizendo que pode
realizar qualquer desejo que tenha, mas que pode enfrentar qualquer situação —
seja de fartura ou de necessidade — porque Cristo lhe dá força. A força não
está em si mesmo, mas em Cristo. E com Ele, nenhuma circunstância é capaz de
derrotar o cristão.
Capítulo 12 — Generosidade e Cuidado com a Obra de Deus
A generosidade dos filipenses é reconhecida por Paulo como
uma parceria no evangelho. Ele diz: "Vós também sabeis, ó filipenses,
que no princípio do evangelho, quando parti da Macedônia, nenhuma igreja me
participou em coisa de dar e receber, senão vós somente" (4:15). Eles
foram os primeiros a apoiar Paulo, e continuaram enviando suprimentos mesmo
quando ele estava longe, na prisão.
A oferta que eles enviaram não foi apenas ajuda material: "Porque,
na verdade, recebi tudo e tenho abundância; estou cheio, havendo recebido de
Epafrodito o que da vossa parte me foi enviado, aroma suave, sacrifício
aceitável, agradável a Deus" (4:18). A oferta dos fiéis é comparada a
um sacrifício no Antigo Testamento: sobe diante de Deus como aroma suave. Não é
o valor material que importa, mas o coração que dá.
E a isso se segue uma das promessas mais consoladoras da
Bíblia: "E o meu Deus, segundo a sua riqueza em glória, suprirá todas
as vossas necessidades em Cristo Jesus" (4:19). Deus não é devedor de
ninguém. Quando os filipenses cuidaram da obra de Deus, o próprio Deus assumiu
o compromisso de cuidar deles. E Ele não supre "um pouco", mas
"segundo a sua riqueza em glória" — ou seja, à altura da sua generosidade
infinita.
Capítulo 13 — Saudações Finais, Comunhão e Bênçãos
No capítulo final, Paulo envia saudações mútuas que revelam
a amplitude da comunhão cristã. "Saudai a todos os santos em Cristo
Jesus. Os irmãos que estão comigo vos saúdam. Todos os santos vos saúdam, mas
principalmente os que são da casa de César" (4:21-22). A referência à
"casa de César" é notável: mesmo no palácio do imperador romano, no
centro do poder que perseguia os cristãos, havia crentes. O evangelho havia
chegado até ali, e a igreja em Filipos estava conectada com esses irmãos distantes,
unidos pelo mesmo Senhor.
Isso mostra que a igreja não é um grupo isolado ou local: é
uma família universal. Os que estão perto e os que estão longe, os que têm
poder e os que não têm, todos são um em Cristo. As saudações finais selam o
vínculo de amor que une os fiéis através das distâncias e das diferenças
sociais.
E a carta se encerra com a bênção apostólica: "A
graça do Senhor Jesus Cristo esteja com o vosso espírito" (4:23). Tudo
o que Paulo escreveu — alegria, humildade, unidade, contentamento, paz — não
vem de esforço humano, mas da graça de Jesus. É a graça que nos salva, que nos
transforma e que nos sustenta até o fim. Com essa palavra, Paulo entrega os
filipenses e a todos os leitores da carta ao cuidado daquele que é capaz de
guardá-los até o dia final.
Bibliografia
Abaixo, a bibliografia consultada para a elaboração desta
obra, organizada em ordem alfabética segundo as normas da ABNT:
BRUCE, Frederick Fyvie. As Cartas de Paulo aos
Filipenses, Colossenses e Filemom. São Paulo: Vida Nova, 2005.
CALVINO, João. Comentário à Carta aos Filipenses. 2.
ed. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2012.
CARSON, D. A. O Sermão do Monte e o Ensino Ético de Jesus
e dos Apóstolos. São Paulo: Vida Nova, 2018.
DOUGLAS, J. D. (Ed.). Dicionário da Bíblia. 2. ed.
São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2009.
FEE, Gordon D. Paulo, o Espírito e o Povo de Deus: Uma
Abordagem Exegética e Teológica à Mensagem de Paulo. 3. ed. São Paulo: Vida
Nova, 2010.
GOMES, Allen P. Filipenses: Um Comentário Exegético e
Expositivo. São Paulo: Hagnos, 2015.
HENGEL, Martin. Estudos sobre o Cristianismo Primitivo e
o Judaísmo do Primeiro Século. São Paulo: Paulus, 2004.
KÄSSEMANN, Ernst. Comentário à Carta aos Filipenses.
Petrópolis: Vozes, 1999.
LADD, George Eldon. Teologia do Novo Testamento. 2.
ed. São Paulo: Vida Nova, 2003.
MARTIN, Ralph P. Filipenses. 2. ed. São Paulo: Vida
Nova, 2002. (Série Comentário Exegético do Novo Testamento).
MENDES, João Marcos. A Teologia da Kenosis em Filipenses
2:5-11. Belo Horizonte: Editora Fafe, 2019.
MURRAY, John. A Graça de Deus: Estudos de Teologia
Bíblica. São Paulo: Editora Cristã Evangélica, 2008.
RICHARDS, E. Randolph. Paulo e a Igreja Primitiva:
Contexto, História e Teologia. São Paulo: Vida Nova, 2014.
SCHREINER, Thomas R. Teologia do Novo Testamento. 2.
ed. São Paulo: Vida Nova, 2016.
STOTT, John R. W. A Mensagem de Paulo aos Filipenses:
Alegria no Meio da Luta. São Paulo: ABU Editora, 2006.
ZERWICK, Maximilian. Grego do Novo Testamento: Manual
Conciso. 4. ed. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2007.
Espero que este trabalho atenda aos seus propósitos de
estudo e publicação.🙏

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